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Quarta-feira, Abril 16, 2003


 
Alfama (5/8)
Quando o velhote que descia a rua olhou para mim e eu apertei o disparador, senti o meu coração a parar. Parecia uma premonição. Sabia que algo tinha ficado mal. Talvez o enquadramento, talvez a exposição. Não sabia o que teria sido... Depois olhei para o eléctrico que lentamente se preparava para descer a rua e pensei que aquele sentimento talvez se devesse ao eléctrico vermelho. É sabido que esta cor provoca uma agitação nas pessoas. Não é em vão que os eléctricos são todos vermelhos, ou amarelos. Sinais de perigosidade. E este talvez me tenha transmitido essa mensagem. Talvez seja isso ou talvez tenha sido o olhar seco do velhote que descia a rua. Calmamente. Tinha-se despedido de uns turistas que lhe pediram indicações, ainda o eléctrico vinha muito ao cimo da rua. Os turistas, pelos ares e pela conversa, pareciam ser alemães. Eu segui-os com a objectiva. Achei-lhe uma certa piada, caminhando com um ar um tanto ou quanto lunático. Olhando para o ar, como fazem todos os turistas. Em busca de algo que não sabem muito bem o quê. Descobrindo coisas que se calhar nem nós sabemos existirmos, porque caminhamos sempre de olhar baixo. Segui-os lentamente e vi-os aproximarem-se do velhote. Perguntaram-lhe qualquer coisa. Pelos gestos da resposta ( bom português nunca deixa de ser hospitaleiro e não responde nunca com um "no hablo") pareceu-me que os turistas queriam ir para a Graça. Também nós lá iríamos mais adiante. Agora era tempo de descer. Observava-os descontraída, quando o eléctrico se assomou ao cruzamento. Aí o velhote despediu-se dos alemães e recomeçou a descida. Do lado, alguém do meu grupo, perguntou-me se não fazia uma foto ao eléctrico. Não desconfia com certeza que o meu motivo nos últimos minutos era outro. E assim fiquei no meio da linha do eléctrico, tentando apanhar o momento perfeito para a fotografia. E quando disparei, percebi que captara o inevitável. Aquele olhar do senhor denunciava-o. Ele foi andando e o eléctrico também. Eu entretanto, chegara-me ao passeio para lhe dar passagem. Nesse preciso momento o velhote passou também e ele, entalado entre mim e o eléctrico, entalava-me entre ele e a parede. Chegou-se ao pé de mim e disse:
"Roubou-me um olhar, agora roubo-lhe um beijo, menina."
E foi assim que me pediu um beijo emprestado.

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