6H Agridoce - netcast de tecnologia, ciência e internet

Emissão em mp3 sobre Linux, open source, novas tecnologias, exploração espacial e os limites da ciência.

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Sexta-feira, Maio 30, 2003


 
É estranho que se escreva apenas quando morre alguém, mas é estranho que se escreva sobre alguém quando esse alguém morre.

Quinta-feira, Maio 29, 2003


 
Afinal o passado não é presente e o futuro conquista-se agora.

E eis algo que o Matrix não conseguiu.... Eu prometi a mim mesmo há muito tempo não escrever sobre os filmes que vejo, para não transformar este blog numa revista de cinema (apesar das insistências), mas sobre o tão esperado Matrix Reloaded... cedi.. sim ia escrever sobre o filme. Quando o Grenha me telefonou a convidar, avisou logo era para ver o filme, não para dizer mal. Como se eu fosse dizer mal do filme durante o filme?... só no fim... se fosse preciso. Mas a verdade é que quase não resistia a esperar pelo fim, e ao intervalo já andava para lá a mandar umas bocas ao Keanu Reaves. Afinal aquela cena de sexo entre NEO e a TRINITY... que coisa... ela ali a mostrar-se como excelente actriz... e ele... naquele papel tristonho e sinistro de quem só tem uma cara quadrada e não sabe representar. Imaginem se ele não estivesse com a mulher que amava...

Mas ao fim de 5 minutos já se tinha percebido o tom desta sequela: Acção... efeitos especiais e muita coreografia de Hong Kong. E no meio das longas cenas de acção... uma ou duas falas....

O positivo deste filme? A cena da perseguição automóvel é uma das mais longas e mais bem feitas (tirando um ou outro pormenor que estragam o conjunto) dos últimos tempos. Nomeadamente a parte da condução da Ducati 996. Fabulosa. A mota também. O que nos faz pensar que esta sequela é uma espécie de mistura de filmes: de James Bond com o Super Man (the super man thing) , com o Homem Aranha e com mais alguns outros.

Quanto ao final... a surpresa é que no fim do filme anuncia-se aquilo que já todos sabiam com o Matrix Revolutions, a estrear em Novembro: Afinal o Matrix 2 é uma sequela de dois filmes. Original pelo menos. E uma sequela muito pouco atraente se esquecermos a parte visual, onde é deslumbrante. Uma nota para a Monica Belucci que se salva no meio daquele marasmo, assim como para a Carrie-Anne Moss, mas que não evita estar presa a tanto cabedal.

Só para finalizar: Alguém sabe onde posso arranjar uns trapinhos tão rotinhos como os que eles utilizam quando não estão no matrix? E já repararam que esses trapinhos imitam na perfeição os fatos da tripulação da Enterprise? Ok Captain Picard, o filme é mau... mas é entertainement. E isso basta. Para além de que vai fazer uns senhores milionariamente ricos.

Quarta-feira, Maio 28, 2003


 
104


Se recordo quem fui, outrem me vejo,
E o passado é um presente na lembrança.
Quem fui é alguém que amo
Porém somente em sonho.
E a saudade que me aflige a mente
Não é de mim nem do passado visto,
Senão de quem habito
Por trás dos olhos cegos.
Nada, senão o instante, me conhece.
Minha mesma lembrança é nada, e sinto
Que quem sou e quem fui
São sonhos diferentes.

26-5-1930
Ricardo Reis

Domingo, Maio 25, 2003


 
A porta espelho.

Tivemos uma discussão. Mandei-o à merda, eu sei, bem merecido, o filho da puta. Mas não era razão para fazer um alarido que acordasse a vizinhança. Afinal ninguém aqui a mandou ter culpa... Claro que a culpa é dele. É sempre dela. Não que eu fosse um santinho, que não o era, mas desta vez a culpa foi mesmo dela. Claro que se está a ver que me vai culpar. Não lhe falo mais, das outra vezes foi para casa da irmã, de certeza que está lá a chorar agora pelos cantos, não choro, não choro, e eu ia lá com o rabinho entre as pernas. Estou farta, adeus cabrão. Escusas de me telefonar.

(e ela caminhou decidida ao longo do corredor em direcção à rua)


 
A vida é só uma sombra errante, uma pobre actriz

Que se aflige e pavoneia em sua hora de palco
E depois não é mais ouvida: é uma história
Contada por um louco, cheia de som e fúria,
Significando nada.

Shakespeare


 
Rats
Um rato passeou-se pelo meu quarto. Foi ontem. Eu vi-o quando se preparava para se esgueirar pelo seu buraco. Pus-lhe uma ratoeira à porta. O rato não quis vir cá fora comer o queijo. Por fim achei um desperdício e comi o queijo. Mas decidi dar luta aquele rato. Comprei um frasco com um irritante nasal em spray - vulgo gás de protecção. Achei que nem um rato resistira a um fedor daqueles e teria que sair de dentro das paredes. Gastei a lata nos vários orifícios que encontrei e que poderiam ser onde ele se escondia. Resultado: Fui viver para casa da minha namorada durante uns dias. O cheiro a pimenta era insuportável. Irritante mesmo. Não conseguia dormir. Passava a noite a espirrar e com os olhos inchados.
Voltei passado uma semana para descobrir que o rato ainda andava por lá. Apanhei-o num armário da cozinha. Fechei a porta e pensei como o poderia matar. Peguei num tacho que estava no fogão e preparei-me para o atacar. Mas o diacho devia estar preparado e quando abri a porta ele fugiu imediatamente para a parte superior do armário. E eu tentando acertar-lhe apenas consegui deitar ao chão a caixa da varinha mágica, que costumava guardar lá em cima. Ainda julgo que foi ele quem a empurrou, mas a minha namorada diz que ele não tem força suficiente para empurrar a caixa. Ela nunca o viu, mas eu garanti-lhe ser enorme, embora não o fosse. Sabem aqueles ratinhos brancos de ter por casa? O meu não era branco. Não era o meu. Era um invasor e estava a ocupar espaço propriedade de alguém que precisava da sua privacidade.
Depois tentei telefonar para a câmara municipal, donde me disseram que tinham feito uma desratização há 3 meses e que agora não iam fazer uma novamente por minha causa. De seguida telefonei para o jardim zoológico, mas não aceitavam animais tão pequenos. Mandei-os passear. Por fim desisti. Coloquei a minha casa à venda e fui viver para casa dela. Pensei em matá-lo à fome, ou então arranjar alguém que lhe desse de comer. Mas a verdade é que ainda não vendi a casa e de cada vez que lá vou, encontro no chão da cozinha a caixa de papelão da varinha mágica.

Sábado, Maio 24, 2003


 
O saudável. O triste saudável. Mas o sentimentalista que caminhava ternamente já não caminha. O saudável. O triste saudável. Saudável ou com saudade? Há certamente dúvida na procura e há ainda mais no achamento. Assim o defini. Achamento. Mas qual pequenez, qual desaire amoroso, encontramos os pequenos desejos expressos no trémulo lábio. Barroco. Um dia li um texto barroco. Era ocre. Era um por do sol que queimava o rosto. Era um chapéu arremessado ao mar, para ser devolvido à praia. Era um autocarro vermelho. Um triste saudável. Que regressava. Atravessou decididamente a praça, com um embrulho às costas. Procuramos o quê? Afinal está tudo cheio de estranhos. Este mundo parece perdido. Não, o barroco é saudável, redondo nas suas cores ocres, na volta que se dá no regresso à terra. Ao chão que pisamos. O pó que vemos partir a cada passo que avançamos em direcção ao pôr do sol.

Sexta-feira, Maio 23, 2003


 
A boca


      A boca
      que primeiro levou
      aos meus lábios a cor da aurora
      ainda
      em belos pensamentos desconto o aroma.

      Ó pueril boca, amada boca,
      que dizias o que ousavas e tão doce
      eras a beijar.

Umberto Saba (1883-1957)
(tradução de Eugénio de Andrade)

Quarta-feira, Maio 21, 2003


 
       


 
Momento do passado!

Lembram-se do Grease?
Sim do filme.
Lembram-se do baile onde o Travolta estava com um fato preto, com uma camisa cor de rosa e umas meias a condizer?
Não? Então Vejam


 
the aliens

you may not believe it
but there are people
who go through life with
very little
friction or
distress.
they dress well, eat
well, sleep well.
they are contented with
their family
life.
they have moments of
grief
but all in all
they are undisturbed
and often feel
very good.
and when they die
it is an easy
death, usually in their
sleep.

you may not believe
it
but such people do
exist.

but I am not one of
them.
oh no, I am not one
of them,
I am not even near
to being
one of
them

but they are
there

and I am
here.
Charles Bukowski


 
oh,yes

there are worse things than
being alone
but it often takes decades
to realize this
and most often
when you do
it's too late
and there's nothing worse
than
too late.

Charles Bukowski

Terça-feira, Maio 20, 2003


 
This message will self-destruct in 5 seconds

Já imaginaram não ter que devolver os DVD que alugam no clube de vídeo? Não ter que nos lembrar de ir entregar o filme ajudava a não pagar aquelas multas excessivas. Porque motivo vou pagar o filme 4 ou 5 dias... se o vi apenas uma vez?... Pois é o problema está resolvido. Já há tecnologia que permite não ter que devolver um DVD. São feitos num material especial que reage com o oxigénio atmosférico. Ora o processo é o seguinte: O CD tem uma cobertura desse material que é vermelha. Tirando o CD do invólucro que o contem, o material entra em contacto com o oxigénio atmosférico e passa a preto. Enquanto o laser do DVD consegue atravessar a camada vermelha, não consegue atravessar a preta, inutilizando o DVD. Este processo é lento e permite que qualquer pessoa consiga ver o DVD nos dois dias seguintes a extraí-lo da capa protectora. A Disney entretanto é a primeira empresa a anunciar a utilização deste sistema.

[ ler mais ]


 
Vítor Espadinha

Porque eu sempre fui contra aquilo. Puseram-me lá obrigado e eu não matava ninguém. Mandavam-me formar pelotão e eu não formava nada e quando passava o brigadeiro para bater continência eu mandava-o prò caralho.

[ ler mais na 365 ]

Segunda-feira, Maio 19, 2003


 
Review: The Matrix: Reloaded

"Certainly, it is no secret that Keanu Reeves cannot act. Fortunately, the Matrix franchise doesn’t require him to do so. He wears cool clothes and sunglasses and most of his screen time is spent kicking ass or rolling out dialogue so clunky that it makes acting irrelevant. The rest of the cast, with the notable exception of a couple of the supporting roles, stoops to the occasion, simply stating their lines and posing rather than acting. All this was okay in the first Matrix movie."
de dtheatre.com


Hilariante


 
Tanto para ler, tanto para recuperar...

Domingo, Maio 18, 2003


 
E acabaram os meus 15 minutos no CyberCafé...
...


Uma das coisas que Viana tem de bom é que é cheia de pequenas surpresas. Cheguei de um jantar com amigos e deitei-me. Andei, revirei, a minha gata passeou-se por cima das minhas pernas. Deitou-se ao fundo da cama e adormeceu. Mas não eu, que me virei e revirei. Levantei-me e fui beber água. Depois olhei para a minha Smith-Corona e achei que faria muito barulho se fosse escrever àquelas horas. Li um pouco então. Fiz um esquisso de um edifício envidraçado com o qual sonhara na véspera e voltei à cozinha. Olhei para a mesa e lá estava um bolo de chocolate com cobertura de mousse de chocolate. Apesar do exagero achei que talvez me ajudasse a adormecer. Comi uma fatia não muito pequena. Voltei para o quarto. A gata acordou. Olhou-me estremunhada enquanto me deitava e virou-se para o outro lado. Olhei para a mesinha de cabeceira onde estavam dois recipientes. Espreitei, hm... fruta da época. Num, morangos que comi primeiro e no outro cerejas. Uma delicia. Quando acabei senti o sono novamente a tentar vencer-me. Deixei-me deslizar para dentro dos lençóis e adormeci.


 
Sabe quem já passou pela experiência, que um repasto no Alto Minho é algo de diferente. E quem passou, pensa sempre quando poderá voltar a passar. Ora eu estando longe, sinto-me um incompetente em matéria de organização desse tipo de repastos, pois já não sei onde se come melhor, ou onde é que há aquele vinho especial, ou onde servem melhor, ou mais, conforme os paladares e os apetites. Por isso confio inteiramente nas boas escolhas que aqueles meus amigos, que pelo Alto Minho vivem, fazem. Assim foi. Convite a meio da semana para um jantar de arroz de cabidela, este sábado: “com certeza estarei lá em Ponte do Lima, à hora marcada”, disse eu. Começamos primeiro em Viana, junto à praia, a beber um água das pedras, para desmoer qualquer resquício de outra comida que pudesse vir posteriormente a estragar o paladar. Ora uma água das pedras, um mar esplendoroso e uma hora depois fomos apanhar um casal amigo e seguimos caminho. A poucos quilómetros da vila de Ponte do Lima, indo pela margem sul, fica “O Cedro”, um restaurante que quase passa despercebido, não fora a árvore portentosa que lhe dá o nome. Durante a semana tínhamos já telefonado a marcar mesa e os bichos já tinham sido escolhidos, apanhados e o seu preparo estava já adiantado. Sendo fora da vila, este restaurante à noite não tem muitos clientes. Estávamos nós is cinco e mais um outro grupo, noutra sala. Se fosse almoço teríamos com certeza que esperar vez e vaga. O almoço típico passa pelo prato de bacalhau, sempre de primeira categoria, seguido do arroz de cabidela. Nós como jantávamos, dispensamos o bacalhau, que assim foi poupado para o almoço de Domingo. Este restaurante não se dá ares de fino. Quem aqui vem, vem para comer bem, aliás com é típico das boas casas alto-minhotas. Sempre desconfiei dos restaurantes que colocam uma catorzada de petiscos e entradas e não sei mais o quê na mesa, mesmo antes de pedirmos o prato principal. Parece que se vai ao restaurante não para comer isto ou aquilo, mas antes para se encher de entradas. Ora aqui nada disso. Tínhamos lá ido para comer arroz de cabidela, pelo que arroz de cabidela seria o que iríamos comer e não teríamos que esperar muito pelo aroma que vinha da cozinha. A única coisa que veio para a mesa foi boroa de milho, da autêntica, a cheirar a norte por todos os poros e enquanto esperávamos pelo apurar do repasto, uns rissois de carne, caseiros, que a cozinheira acabara de fritar. Simplesmente deliciosos. Escusado será dizer que não ficaram muito tempo a arrefecer. Finalmente e não demorando muito tempo, chegou aquilo pelo qual passáramos a semana a salivar. Para a mesa vieram duas travessas de barro, com um arroz de cabidela como o não comia há muito tempo. A carne estava excelentemente cozida, mostrando bem tratarem-se de frangos domésticos. Um sabor jamais alcançável por qualquer pito stressado. Só uma vida despreocupada de pica no chão dava origem a um prato daqueles. E comemos deliciosamente. Para acompanhar, vinho, naturalmente. Para um estranho ao Alto Minho, um vinha tinto seria natural, mas estranharia se esse tinto fosse um verde tinto. Para os cinco presentes, um arroz de cabidela só poderia ser bebido com um verde tinto, ali mesmo da região. Ponte do Lima está claro. Não por ser um vinho erudito como outros, mas antes por ser um vinho para gente da terra, para gente que viveu ali e ali participou em vindimas. Um vinho cruel para com paladares delicados e paladares habituados a outras doces paragens. No caso, apenas um quase carrascão – e perdoem-me os alto-minhotos esta expressão, pois sendo perfeitamente injusta e mentirosa, é a que penso melhor criar uma imagem gustativa nas mente dos “outros”, que não sabem o que é um verde tinto – poderia acompanhar o nosso avinagrado (q.b.) repasto.
Ora das duas travessas repetimos duas vezes e o dono da casa mandou sair mais uma que ficara na cozinha para não arrefecer. Três travessas então, sendo que da última já não foi possível ver o fundo, tal o fartote de comida. Altura de passar às sobremesas. Eu estando já pouco treinado nestes manjares, desisti e fiquei a aguardar o café. Mas pediu-se leite creme que pela opinião dos meus convivas estava delicioso, o que provava que a cozinheira tinha também boa mão para doçarias. Entre conversas e esclarecimentos sobre as aventuras de nossas vidas afastadas, passou-se o tempo devagar até ao café. Seriam uma onze e meia. A conta?... irrisória perante aquilo que comemos e muito menos que aquilo que está a imaginar para um jantar como o que lhe descrevi.
Perto da meia noite saímos, despedimo-nos e regressamos às nossas vidas. Eu a pensar neste texto e na pouca sorte daqueles que não sentem assim o Alto Minho. Até ao próximo jantar.


 
Sonho estranho o que tive novamente esta noite. Sonhei com o Porto e sonhei com um edifício, museu ou biblioteca, que não conheço. Mas sonhei-o de uma forma muito viva e presencial. Estava lá. Sei-o. Embora não o conheça, sei que era no Porto. Não sei porque o sei. Apenas sei-o. Estava acompanhado por um mulher neste sonho. Uma mulher voluptuosa. Belíssima. Não sei se minha amante ou se em vias de o ser. Em diferentes alturas do meu sonho precisei diferentes aspectos da sua anatomia e sei que eram de pessoas minhas conhecidas: as pernas de uma mulher, os seios de outra, voz de uma terceira. Mas todas ali encarnavam uma só, que era a que me acompanhava no sonho. Muito embora fosse eu quem a acompanhava em termos de argumento onírico.
Uma das situações vividas no sonho era também de algum estranhísmo. A parte traseira do edifício onde nos encontrávamos era toda envidraçada. Teria talvez uns 15 metros, esta fachada, por uns 60 de comprimento e era toda envidraçada. Dava para uma colina que era recortada por um caminho, ou um passeio público. O edifício era percorrido por um grande corredor ao longo de toda a face envidraçada e situado entre esta e uma parede interna à vidraça e que apenas tinha duas portas nas suas extremidades. Penso que esta parede estava pintada de bordot. O corredor ficava a meia altura do edifício pelo que estaríamos talvez numa varanda sobre a colina, a uns 8 metros do chão. Não se tratava propriamente de uma varanda porque ainda havia o vidro, mas como tinha um guarda costas, funcionava como varanda para quem como eu estava ali parado a observar a colina. Ora no passeio público da colina, que visualmente pouco abaixo ficava da varanda, estavam quatro mulheres. Dois casais lésbicos. Todas quatro vestidas em tons de escuro, algures entre o vanguardista e o retro dos loucos anos 20. Parecia uma fotografia, porque não me apercebi de movimento. Um dos casais não me despertou muita atenção. Abraçavam-se e não as conhecia. No outro casal, pelo contrário, reconheci uma das mulheres. Beijava apaixonadamente a sua companheira. Era uma fotografa minha conhecida. No beijo, que dava e recebia, olhou para mim e o seu olhar pareceu sorrir. Não se incomodou pelo meu olhar e a forma como me olhou era ao mesmo tempo desafiante e um cumprimento. Eu estava apoiado no guarda costas e fiquei ali durante algum tempo. Depois uma velha de negro, com um lenço sobre a cabeça, subiu lentamente a ladeira da colina e quando se aproximou, os dois casais prosseguiram caminha e desapareceram da vista. Fiquei ainda mais um pouco à espera a ver se acontecia mais alguma coisa, mas fartei-me de esperar e fui procurar a minha companheira. O mais estranho desta situação é que tive a perfeita consciência, nesta altura apenas, de que estava num sonho. Se até ali a minha companheira pré-fabricada de colagens me dava uma sensação de realidade, aquela visão da fotografa minha conhecida, garantiu-me estar na presença de um sonho. Daí que me tenha apressado a procurar a minha boneca de porcelana com o pensamento: “ou a encontro, ou acordo” e naquele momento não queria acordar. Estava com esperança de voltar a encontrar a fotografa minha conhecida.

Sexta-feira, Maio 16, 2003


 
Dispersão

Perdi-me dentro de mim
Porque eu era labirinto,
E hoje, quando me sinto,
É com saudades de mim.

Passei pela minha vida
Um astro doido a sonhar.
Na ânsia de ultrapassar,
Nem dei pela minha vida...

Para mim é sempre ontem,
Não tenho amanhã nem hoje:
O tempo que aos outros foge
Cai sobre mim feito ontem.

[...]

Mário de Sá-Carneiro
Paris, Maio de 1913

Quinta-feira, Maio 15, 2003


 
Instalei um sistema de comentários.
Pronto.. Cedi... Agora podem dar-me o feedback que quiserem...
Podem dizer mal, bem, elogios mais que insultos, que sou sensível... O que quiserem, (mas o "velho" email continua a funcionar, se quiserem alguma privacidade, e também uma discussão mais profícua do tema)


 
Incursão Galega

Não consigo escrever nada de especial. Isto porque estou bloqueado. Bloqueado.. vou descansar... Preciso de descansar. O fim de semana em Viana. Ir ver aquele mar imenso (não poluído). Aquele areal da praia do cabedelo. Aquela húmidade no ar... que se entranha nas nossas costas. Sim são saudades. Infelizmente vou estar quase incontactável, pois não vou levar o computador. Mas prometo trazer novas seguras na noite de segunda feira. Há sempre muito que contar destas minhas incursões galegas.


 
Para dar uma vista de olhos... quando tiver tempo
link

Quarta-feira, Maio 14, 2003


 
Com muita pena e já muita saudade.
O meu obrigado

A Fraude morreu

Prepare-se para o pós-FRAUDE

Entretanto o quase ex-editor da revista tem um blog: Eduf

Segunda-feira, Maio 12, 2003


 
Redondo

Fui buscar o meu digestivo. Tinha jantado havia 2 horas e ainda não tivera tempo para o doce. Fui preparar a minha bebida. Um moscatel. Não tenho gelo em casa. Não sei porquê, já há muito tempo que não tenho gelo em casa. Assim a garrafa fica no frigorífico, para arrefecer, que eu não gosto dele quente. Servi-me. Quando achei que a quantidade estava certa, continuei a encher. Que se lixe. Afinal não vou a lado nenhum e preciso desta bebida. Sentei-me em frente à minha Smith-Corona e ataquei o papel. Não sei quem comprou esta Smith-Corona para a minha família. Sei apenas que foi uma coisa que sempre esteve lá em casa. Bebi de uma assentada um golo de meio copo. Comecei a sentir o álcool a entrar no meu corpo. Em poucos instantes comecei a escrever freneticamente aos meus patrões. Não sabia que queriam eles de mim. Afinal já não eram meus patrões. Eram meus ex-patrões. Tinham-me despedido fazia um mês. Agora telefonavam a perguntar onde estava isto ou onde estava aquilo. Não sabiam? Claro que não sabiam. Há muito tempo que o meu subsidio de natal fora cortado. Os meus filhos queriam prendas e nada melhor que trabalhar numa fábrica de brinquedos. Embora eu não tenha ainda dado muita utilidade à maquina de destruir papel e não achar que ela seja um brinquedo que se dê a um filho.

Mães aí fora: eu não sou inconsciente...

Mas estava eu sentado a escrever. Escrevi cerca de 3 páginas a explicar que o facto de já não ser funcionário daquela brilhante instituição, já não me obrigava a saber pormenores da vivência da mesma. Recusava-me mesmo a ler os jornais, porque era novamente altura de Natal e a empresa costuma encher de publicidade as páginas dos mesmos. Não queria qualquer contacto com eles. A qualquer nível. Não os podia suportar. Depois levantei-me e fui encher novamente o copo. Peguei em algumas fotos que estavam espalhadas em cima da mesa e vi que eram do pessoal que trabalhava comigo. Tínhamos feito um jantar e alguém levara uma daquelas descartáveis. Fizeram cópias. Cá estava eu abraçado à Jú. Não me lembro de me terem tirado esta foto. Nos jantares bebo sempre um pouco de mais. É algo que me farta, os jantares. São um tédio. Todos muito bem dispostos e contentes porque estão todos juntos. Tenho fobia. Por isso a primeira coisa que faço quando chego a um restaurante é pedir imediatamente uma bebida. Não suporto estes jantares de grupo. Ainda por cima todos tem que comer apertadinhos, porque sempre aparecem mais do que aqueles que avisam. Eu quando janto, gosto de me sentir bem, à larga. Para poder comer sem sentir o sovaco do vizinho do lado. Mas aqui a Jú abraçada a mim, não tinha problemas de cheiro do sovaco. Quem nos terá tirado esta fotografia? Felizmente dias depois vim-me embora. Senão ainda se ouviriam cochichos pelas salas de desenho.
Mas agora tinha que lhes escrever a dar satisfações sobre coisas que nem eu me lembrava o que eram? Escrevi as três páginas e depois acrescentei uma quarta onde os mandava meterem a reclamação num qualquer caixote do lixo. (Não quis modificar o tom cordial com que tinha começado a escrever a carta.) Depois saí. Levantei-me e fui aos correios. Meti a carta para eles. E fui telefonar à Jú para saber se queria ir jantar nessa noite.


 
[...]

Foi sobre a relva orvalhada
Pelo frescor de um riacho
Quando o sol obliquava
E em volta era tudo selva,
Que eu comi uma pantera
Escura, feroz, inglesa,
Com o cheiro de violetas
Debaixo dela e de mim.

(Fulva para quem quiser
modas pré-rafaelitas,
a pantera! Tanto faz!
Ou morena. Convenção
Como convém a uma inglesa
Convencional, de ocasião.)

E quando nos despedimos
- era noite, havia estrelas -
disseste com essa fleuma
que tão mal me fica a mim:
- I'll see you later. Do come.
Vem amanhã tomar chã
Eu gostar muito de ti.

Ruy Cinatti (1915-1986)
Manhã Imensa

Domingo, Maio 11, 2003


 
a Buk

Já por vezes pensei que fosses tu...
Já.
Sorri..
Como?
GRRRR
Um cai outro, mais um Não não... não
Corro. Fujo aos cães que me saem ao encalço.
Descalço.

Chove lá fora, sem comparações.

Fartei-me dele, dela? Já nem sei quem era o último.
Fui descendo. O meu carro avariara dois quarteirões mais acima e tinha que o entregar ainda hoje na oficina.

Arregacei as calças até aos joelhos para atravessar o último riacho.

Ela? Camuflada.. perdeu-se embrenhou-se. Mas afinal porque corri atrás dela?

Afinal era ela.

Há as outras, as que não correm. Que se limitam a ficar ali na porta de camisa de noite azul transparente. E que me olham como se aquele fosse o último instante de nossos corpos.

Mas essas.. vão e vem. Perco-me nelas? Atraso-me apenas..
O carro vai ficar ali parado até amanhã. Não vou conseguir chegar a tempo. Quando a vir vai partir. Preciso do seu dinheiro. Afinal preciso.

É fácil estar iludido... dizem-me.
Eu estou iludido que não tenho carro e que estou atolado até à cintura em água. Devo estar. Afinal já deixei de sentir os meus pés.

És tu aí?

Não, mais um anónimo que me fita. Que me quer qualquer coisa.
Farto-me de ser o tio, o pai, o psicólogo dele e dela.

Ainda por cima a minha casa fica a uma boa meia hora a pé.
Se ainda passasse um taxi...

Não sei porque pensei que eras tu aí?
Nunca te escondes na penumbra.
Se não chovesse tanto talvez conseguisse cumprir os meus prazos.


 
Soneto Jorge, Luiza

A silabar que o poema é estulto
O amado abre os dente e eu deslizo;
Sismos, orgasmos tremem-lhe no olhar
Enquanto eu, quase a rimar, exulto.

Conheço toda a terra só de amar:
Sem nós e sem desvãos, um corpo liso.
Tenho o mênstruo escondido num reduto
Onde teoricamente chega o mar.

Nos desertos - íntimos, insuspeitos -
Já caem com a calma as avestruzes
- ou a distância, com os oásis, finda;

à medida que nos arcaicos leitos
se vão molhando vozes e alcatruzes
ao descerem no fundo pego, e à vinda

Luiza Neto Jorge


 
Ele há tantos dias que não sentimos nada. Em que os dias passam sem que seja preciso escrever nada, em que tudo o que julgamos ser capazes de dizer... fica solto e tristemente perdido no tempo. Não há por vezes nenhuma triste objecção a realizar. Nem uma consideração menor a fazer. Há dias em que participamos do mundo e não nos conseguimos distanciar para ser críticos ou para o descrever. Nesses dias ... devemos talvez apenas olhar. E deixar amadurecer o que tenhamos para dizer. Não vale a pena forçar. Outras alturas cantamos o que nos rodeia. Hoje não é um bom dia para cantar. Todos os meus sons sairiam desafinados. Não quero estragar o Jazz. Ou será que estou a ouvir Blues? Não, com certeza não é Fado... Mas fosse qualquer género. Hoje não. Hoje estou demasiado tropo para qualquer tentativa.


 

Tätärä
... Uma energia... um divertimento... a grande surpresa do dia. Amanhã ainda no CCB.


 
Nunca te aconteceu chegares a uma janela num dia de Verão, muito calor lá fora.. tu a suares.. olhas para a rua.. e tudo parece fora de ritmo?... a luz é-te estranha, as pessoas movem-se como que pairando no ar.. Os carros passam lentamente. Por momentos encostas-te ao parapeito para te segurares porque pensas estar a alucinar... mas não, o mundo lá fora move-se a uma velocidade diferente.
Aí tens a sensação que te deixaram ficar para trás.
E que a terra decidiu continuar a girar sem ti.


 
Cada caminho é uno.. ou foi..

Quinta-feira, Maio 08, 2003


 
EUROPA NA RUA
Neste, como em anos anteriores, os institutos culturais europeus instalados em Portugal decidiram festejar a Europa como projecto cultural. E escolheram fazê-lo no Dia da Europa. Com a cumplicidade activa do CCB que durante três dias ? 9, 10 e 11 de Maio ? cede os seus espaços ao ar livre às mais diversificadas ofertas culturais, desde um etéreo bailado sobre andas a um espectáculo de dança feito na vertical, passando pela estética europeísta dos penteados e da pintura de pratos. Intrigados? Óptimo. A Europa é já ali no CCB.


 
Todos deviam ver o seguite espectáculo. Eu infelizmente não vou estar em Lisboa no dia 18 de Maio... Para minha grande infelicidade.

Charlie Haden e Pat Metheny no dia 18 no CCBHADEN & METHENY. Quando estes dois músicos sobem ao palco, a interacção entre ambos é algo impressionante e natural. É como uma conversa entre dois velhos amigos que têm muito que falar e com grande eloquência. As suas escassas actuações juntos resultam em colaborações íntimas e talentosas. Charlie Haden começou com o projecto Missouri Sky reunindo uma série de temas que contavam histórias do médio oeste, sobre pessoas que representam o coração das terras americanas.

Trabalhando com Pat Metheny, companheiro do Missouri, os dois criaram um repertório de paisagens inesquecíveis e mágicas. A actuação do duo, para plasmar estas ?Pequenas Histórias? é uma bela e comovedora antologia da música, levada a cabo por dois dos mais destacados músicos americanos.

Texto retirado de www.ccb.pt


 
Instalações

O seguinte excerto foi retirado da revista Utopia, n.º 7 onde se pode encontrar o artigo completo "A Ratoeira das Instalações" de Rafael Dionísio.

«As instalações são uma cilada à reflexão porque:

1. se o conteúdo é inexistente é porque o artista é inteligente;
2. quem não compreende, quem não acha muito interessante, é porque não está na via sacra e certa da arte;
3. quem ri a bom rir é burro, a paródia é banida pelo aborrecimento e pelas profundezas da arte;
4. recusar as instalações é próprio dos conservadores, que já estão ultrapassados pelo devir da arte.

Mas eu julgo que:

1. a arte não está esgotada;
2. as instalações são coisas que só estão desaproveitadas nas suas inesgotáveis potencialidades;
3. as instalações não podem ter a presunção de que as outras manifestações artísticas estão em extinção.

Por isso, propõe-se:

1. campos de trabalho para os artistas, acompanhamento psiquiátrico e, nos casos mais renitentes, uma banhoca de electrochoques;
2. avacalhamento de toda e qualquer instalação e humilhação pública do autor;
3. proibição de todo e qualquer contacto sexual com ungulados domésticos;
4. reeducação pelo método do salto-em-comprimento-e-atchim.
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Foge Fátima, foge

O país tem uma nova heroína. Chama-se Fátima e nada tem a ver com a religião. É a Fátima Felgueiras, da câmara municipal de Felgueiras. E é heroína porquê? Porque estamos num clima onde os portugueses percebem cada vez mais a arbitrariedade e aleatoriedade da justiça portuguesa, onde se atira mais depressa uma pessoa qualquer para os calabouços da prisão preventiva do que se perseguem as provas que efectivamente condenem as pessoas. E depois do sentimento de revolta com os recentes processos, tipo Carlos Cruz, Braga Gonçalves ou Vale e Azevedo - atenção, revolta pelo forma de funcionamento dos processos da justiça, não pelos factos de que foram ou não acusados os indigitados - as pessoas estavam à espera de um caso destes. Em que uma pessoa não esteve com meias medidas e se foi embora. Que não esteve para aturar a justiça portuguesa e a sua arbitrariedade. Então quando é ouvida, o Juiz deixa-a ir em liberdade. Depois... mais tarde num recurso, e sem que a pessoa em causa seja ouvida, como diz a lei, outro juiz decide-se pela prisão preventiva. Não estão em causa os factos que levam a esta decisão. O que está em causa é o processo como é tomada. Agora prende-se, um mês depois não. Mas daqui a pouco talvez. Ora a Fátima fartou-se e baldou-se para parte incerta. O povo de Felgueiras regozija com a certeza que não será apanhada. A Justiça portuguesa será mais uma vez fonte de algumas anedotas e com certeza continuará no seu pedestal... embora de alicerces mais rombos... que até o presidente da república já deixou recados. E Portugal diverte-se durante algum tempo. Mania de torcer pelo que foge da polícia. E sempre contra a polícia. Boa sorte Fátima.


 
Cannes 2003
Está quase a começar o Festival
Este ano dedicado a Federico Fellini

Quarta-feira, Maio 07, 2003


 
A situação

Sabes aquelas situações onde te julgas o maior e ao fim ao cabo estás a ser o maior nabo dos presentes? Em muitas situações diferentes esta pessoa assume nomes diferentes: o burro, o estúpido, o arrogante, o peneiraento, o cornudo.
Pois uma destas situações aconteceu-me recentemente. Fui tomar um café com uma amiga e depois fui comprar livros. Fui à secção de livros estrangeiros, depois aos nacionais. De seguida fui ver as novidades de música e por fim fui em busca de poesia. Assim se passa uma tarde bem passada. Depois fui apanhar o metro. Coloquei os meus óculos de sol e dirigi-me para a estação. Desci à gare e não retirei os óculos. São muito claros, não era preciso - para além de que não tinha onde os guardar. O comboio esperava já. Entrei e encostei-me à porta do outro lado. Fiquei à espera que as portas fechassem. Algumas pessoas olhavam-me espantadas com o cor de laranja das lentes dos meus óculos. As portas fecharam e o meu reflexo surgiu no vidro da porta. Aí reparei que tinha a braguilha aberta até baixo e se viam os boxers azul bebé que vestia. Há quanto tempo estaria assim?

Segunda-feira, Maio 05, 2003


 
Há razões para além da razão. O meu psicanalista costuma dizer, enquanto me receita mais uma parafernália berlindes coloridos, que a mente humana procura sempre novos desafios, ou talvez que não procura. Não sei muito bem o que é que ele diz. Também está sempre com a cabeça baixa enquanto o diz. Mas a verdade é que eu saio dali mais relaxado. Normalmente os enfermeiros que me levam de volta à sala da televisão, não sabem o que tenho que tomar. Mas de vez em quando um deles, o mais alto e pode-se dizer mais bonito, traz-me um prato com bolachas e um copo de leite quente. Penso que me drogam. De certeza que sim. O leite não sabe bem. Em minha casa sempre se bebeu leite semi-gordo. Aquele é magro... não devia saber a nada... Mas sabe. Conhecem aqueles comprimidos de mentol? Sabe a mentol. Não sei porque digo isto. Eu acho que o leite não me faz nada... Por isso até pode ser que não esteja drogado... As bolachas são boas. São de aveia. Gosto, embora no outro dia me tenham dado umas um pouco duras... a dona Gertrudes não deve ter ido à mercearia. Bebo o meu leite. Sempre que mo dão peço um pouco de chocolate em pó.. Até hoje nunca mo deram. Devem ter pouco na dispensa. Julgo eu. Mas o problema do leite é que depois de o beber tenho sempre vontade de ir à casinha. E como eles fecham a porta.. eu ando para trás e para a frente até que me mijo no pijama branco. Acho que os outros não tem tanta sorte como eu. O Pijama do meu colega de quarto tem vários meses... da mesma forma que a roupa de cama. Mas um dia não quis o leite. Estava cansado. E tive que falar com o doutor durante 2 horas. Nesse dia estava particularmente exausto. Perguntou-me pela história do Egipto e por Tutankamon. Disse-lhe que não sabia nada deles. Não ia atraiçoar os amigos. O faraó estava escondido num armário da cantina e eles queriam apanhá-lo desde o dia em que eu entrei ali. Nem sabia ainda que Tutankamon vivia no lar. Mas depois começaram a fazer-me perguntas e perguntas e perguntas e comecei a ter que o esconder. Eu sei. Davam-lhe berlindes e depois também o Deus estava aqui a mijar-se pelas calças do pijama abaixo. Mas hoje exageraram. O psicanalista perguntou-me se sabia dele. Se o continuava a ver, a falar com ele. Devem estar a perceber que o grande dia está a chegar. Mas o problema é que me enchem de berlindes. E ainda por cima eu ouvi o enfermeiro a falar de supositórios... Detesto supositórios... Normalmente dão-nos supositórios na semana antes da comissão de observação vir aqui. Nunca em 25 anos alguém consegui sair daqui. O Samuel está cá desde o primeiro dia. Tem talvez 80 anos. Pensamos que tem... embora ele diga que tem apenas 60. Pelo menos o aspecto dele é de um velho à espera da morte. Mas isso afinal todos esperamos. Aqui ninguém vai a lado nenhum.

Sexta-feira, Maio 02, 2003


 
Queima das fitas 2003
Começou hoje mais uma queima das fitas de Coimbra. Saudades, ai saudades...


 


Há coisas que não podem ser permanentemente escritas. Muitas vezes em cinco minutos se destroi a ilusão de felicidade. Em cinco minutos fazemos o passado esquecer o presente e o futuro e em cinco minutos somos o fim e somos o princípio. Há dias que descobrimos ser os geradores de todo o mal, que é pela nossa maldita existência que tudo é feio. Tudo o que tocamos é destruído. Nunca sabemos quando deixamos de participar deste mundo para nos comportar como deuses ou demónios. Por vezes basta a nossa simples presença. Raras vezes, a ausência, significa também uma razão para o caos. Temos medo de estender a mão. Tenho medo de estender a mão. Sou narcisista. Vou utilizar todos os subterfúgios do meu arsenal para conseguir a minha satisfação pessoal e depois vou deixar cair todos os escombros de guerra. Não faço prisioneiros. Serei um ditador implacável. Assim sou e assim serei. Baralho passado, presente e futuro e jamais repetirei duas notas na minha partitura.

Um, dois, três e esta é uma certeza demagogicamente certa. Uma, duas, três, lá longe, mais perto, dentro de minha casa. Este mistério que sou e que sei que são. Que toco e transformo. Um fim-de-semana atribulado. Permito-o? Afasto-me? Naturalmente sim. Terei que o fazer. Afinal amanhã, depois e passando são a conta do princípio. Uno, dos, três e todas as que perdi. Perdi-lhe a conta mais uma vez. Simples. E as que amei? Um, dois, três as que tarde amei que jamais seriam minhas amantes. São ciclos estes que me complementam. São números que me rodeiam. Futuro, um, dois, três, não há com fugir à minha génese, que aí está o meu destino. A raça que me carrega. Assusta o como em um, dois e três dias afastei de mim o um, e o dois afastar-me-ei, e ao três calarei, para que os céus se apazigúem e possa descansar uma mente perturbada.
Três, dois, um...


 
Maria chora, Maria tem um filho, sangra
Maria chora, tem o corpo dorido, uma história
Maria secreta é uma linha

Será que uma linha no infinito continua a ser uma linha?

Tenho as faces banhadas pelo sol Queria
Maria que me aura, não vê o sol
O desassossego me aflige
Descobrir e nós banalmente
Pequenos que nunca queremos estender a mão

Maria tem um contacto, Maria sabe
Maria não dorme, deixou de dormir
Maria sufoca. Deixou de sufocar
Maria é, mas foi e será
Maria não sabe que luz é
Maria
Maria
Maria
Maria

No retorno ao vazio o desejo
No seu centro existe? Tu que me fazes sofrer
Com vossos sofrimentos
O desejo existe? Ainda?

Como será (a) boa (a) vida de um cão como nós.

Maria, a mãe, a margarida, a deusa da caça e
Do vinho, do desejo e da sedução

Porque não quero que nada seja permanente?
"O tempo destroi tudo" - Le Irreversible
Quero apenas acelerar o processo do tempo. Serei
Deus? Que magnânimo sou que afasto Maria de
Meus braços porque recusa a minha condição de humano.

Fujo da luz porque não sei para onde caminho.
Afasto-me de tudo porque a negritude avança
E Maria, desculpa-me este afastamento. Não sei
Não sei Maria que pensará ele, teu amo, destes caminhos desencontrados.

Quinta-feira, Maio 01, 2003


 
Estou deliciado com esta música. O problema está em descobrir mais dados sobre esta banda... Onde actuam? Onde os posso ouvir para além destes mp3?... Se alguém souber... avise-me. Hi-Fi Fm


 
Ode às Mulheres da Vida.

Gatas humanas da rua,
Que poema de Janeiro!
Que epopeia branca e nua
Ai luar do mundo inteiro!

Amam? Não amam? Que importa
Saber mistérios alheios?
A carne pode estar morta
E ter quentura nos seios.

Encolhidas nos portais,
Debruçadas nas janelas,
São amantes naturais
Prostitutas e donzelas.

Todas beijam, todas são
Aberta terra em pousio;
Calor de fecundação
Num desespero vazio.

Alguém passa, alguém as quer,
Alguém que é alto e moreno...
Como vai qualquer mulher
Senão assim, a um aceno?

E num quarto e numa cama,
E num lençol de amargura,
Nua e branca, quem é dama,
Ou mulher de vida impura?

Humildes servas de Deus,
Do Deus homem as chama
Que humanos versos os seus,
A brilhar na sua lama!

Miguel Torga
Lisboa, 16 de Janeiro de 1946

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