6H Agridoce - netcast de tecnologia, ciência e internet

Emissão em mp3 sobre Linux, open source, novas tecnologias, exploração espacial e os limites da ciência.

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Quarta-feira, Julho 30, 2003


 

Mutts e Email

Inspirado no livro Mutts de Patrick McDonnell
Mooch, quando estás naquele "transe felino", em que é que pensas? Absolutamente nada UAU...
Como é que consegues?
  Consigo o quê?


Estou com dificuldades a aceder ao meu email de contacto. O sixhat@msn.com está ao que parece em baixo. Por isso se pretenderem, podem entrar em contacto pelo seguinte email: sixhat@sapo.pt. A todos os que tentaram entrar em contacto comigo e não conseguiram, por favor enviem os emails para este novo contacto.

Segunda-feira, Julho 28, 2003


 

Partidas

I think this is the beginning of a beautiful friendship.
in Gato Preto, Gato Branco e in Casablanca


Olham os filhos. Olha lá longe.
A velha chora.
Navega o azul.
Rio que me levas a alma
Um cavalo branco que me sonhou na margem.
Fui ali ver-te.
Bebi à saudade.
Queria ver-te cá. Queria ver-te lá.
Onde o rio abraça o mar e desperta o Sol.

Uma lambreta animada. Onde fomos ver-nos futuro e onde fomos ver-nos presente. Uma banda que quis voar. Um rio que traz a vida. Uma valsa que dançamos nas margens. Em busca dessa miragem.

Quimeras.

Uma dança. Um soco no estômago dos sentidos. Um violento caminho. Uma dança. Um lobo que se aproxima. Parte a cada instante. A cada passo que dá.


 

A onda

Queria dizer-te que tão simplesmente não sei que te queria dizer. Ainda que procure, sempre não encontro. E vejo que outros parecem possuir as respostas para estas simples questões. Havia alguém que falava da dúvida de partir ou ficar. Mas até nessa dúvida havia a certeza. A certeza de possuir a dúvida. Fazemos apenas coisas quando possuímos algo, mesmo que esse algo seja a posse da dúvida. Enquanto não a definimos concretamente não a conseguimos resolver. Qual a nossa dúvida? Qual o caminho que procuramos? Para onde caminhamos? Estaremos condenados a ficar eternamente parados em busca dessa posse que nos tempos modernos não existe mais? Que onde tudo o que é efémero, apenas permite que nos movamos com a grande onda do descontentamento geral. Onde todos procuram algo, porque sabem que procuram. Onde está afinal o nosso Nirvana? Onde somos realmente, verdadeiramente e irracionalmente felizes? Quando partimos para essa busca?

Domingo, Julho 27, 2003


 

Mt. Earie

Agora que desapareci, ouço ao longe os barcos no cais.
De vez em quando ouvem-se gritos do metal a ressoar. Aquecem os motores já há algum tempo. Está carregado. Surge uma buzina longa e grave. As amarras são libertadas e lentamente o rebocador puxa o grande monstro de metal para o centro do canal. Por fim larga também o elo que os une. O cargueiro coloca-se em marcha. Desloca-se lentamente pelo centro do canal. Está uma chuva miudinha e está escuro. Não se vê a chuva. Apenas se sente. Ouvem-se as máquinas a trabalhar repetidamente. A água a ser cortada pelas toneladas de metal flutuante.
Saiu agora para mar alto, começou a virar a Norte. O capitão fez avançar a alavanca da velocidade para a posição de “a todo o vapor”. Com a chuva, poucos são os marinheiros na coberta a despedir-se dos amores de terra. O cozinheiro já descascou cerca de 25 kg de batatas. Sente o movimento do barco. Pelo ranger, sabe o que se passa. Tem já vinte anos de mar. Parecem 100. A um canto um cão, um Golden Retriever, percebe que vai passar mais uma jornada de enjoos. Guincha baixinho e tenta-se reconfortar enrolando-se numa camisola velha de lã. Lã fora o nevoeiro começa a cair rapidamente. Deixa-se de se ver a proa do barco. O capitão guia-se pelo radar e pelo satélite. É um barco moderno este. Mas silencioso.
Ahab também gostava de partir pelo escuro. Talvez amanhã faça sol.


 

Acampar na Rede

Não percebo porque escrevo tantas páginas soltas e sem grande interesse. Estou a ficar maluco. Sem tino completamente nenhum.
Vou regressar à poesia. Li outros hoje. Esse foi o meu pecado. Não consigo escrever. Cada vez acho mais difícil gostar do que os outros escrevem. Noventa por cento de que leio por é completamente transparente. É um fenómeno. Apenas isso. E o fenómeno irrita-me. Porque todos os fenómenos são efémeros. Há coisas que são demasiado simples para caírem no seio da vulgaridade. E há muitos campistas por estas bandas. Há-os. O que realmente trazem de original? Aprenderam a estrelar uns ovos numa frigideira sem azeite. Preferem óleo, gordura mais barata e sem paladar. Quem afinal usa azeite para mais que o bacalhau de Natal? Poucos aguentam. Muitos morrem, mas até os mortos são lembrados. Afinal não se deixam morrer em paz. Os vivos querem perpetuar o fenómeno. Querem mostrar aos descendentes que afinal foram eles a acender o lume. Foram? Os filhos nunca saberão. Mas esqueceram-se de prender as espias como deve ser. E a borrasca da noite levará as suas tendas. Os meus ovos estão a ficar queimados.

Sábado, Julho 26, 2003


 

Sentido de nada.

Velocidade. Senti-o. Senti o grande o. Aquele. Aquele que caminhava connosco de cada vez que procurava olhar para trás. Para a minha vida. Afinal não amava nada. A minha passagem era tão simplesmente de uma cegueira generalizada. Tudo seguindo o percurso natural das coisas. Tudo em suas caixas, tudo nas suas engrenagens.

Estava no país onde os meteorologistas não se enganavam. Onde os políticos cumpriam as promessas. Era tudo certinho ali. Sem pensar muito no assunto. Sem me interrogar se tudo não passaria de uma grande farsa.

Foi ali, naquele instante que tudo se modificou.

Parei o meu carro no cruzamento da avenida principal do país. O país tinha uma avenida que o percorria de um extremo a outro e que era utilizada por milhares de pessoas todos os dias. Pessoas que procuravam novos lugares para si. Pessoas que fugiam das suas vidas algures lá. Havia até pessoas que guiavam para trás e para a frente, sem nunca saberem onde queriam sair. Passavam a vida naquilo. Eram chamadas de “sem destino” cá.

Eu estava a preparar-me para entrar nessa avenida. Deveria virar à esquerda, em direcção a aqui. Mas no momento em que a minha mão esquerda tocou o manipulo do pisca, olhei para uma loja, do outro lado da avenida, cuja vidraça reflectia uma luz encandeante. Por uma fracção de segundo fiquei cego. Senti uma lança entrar-me pelos olhos e atingir-me a parte de trás do cérebro. Procurei abrir os olhos. Não consegui. Coloquei a minha mão fora da janela para tentar dizer ao automobilista que estava atrás que me encontrava em apuros. No momento que coloquei a mão fora da janela, uma gota de água caiu-me nas costas da mão e escorregou lentamente por entre o anelar e o médio. Senti um arrepio. Aquele frio suave da água a deslizar pela mão fez para o meu ser. Ouvi o meu coração a bombear o sangue lentamente. Como se tivesse 5 bpm. Tudo ficou translúcido. Senti o desmaio aproximar-se. Percebi o irracional. Viajei por uma fracção de segundo pelo planeta que há em mim e senti os meus poros abrirem lentamente. Senti goticulas de suor a formarem-se. Viajei pelas entranhas do meu corpo e senti os alvéolos a dilatarem a cada inspiração de ar fresco. Na corrente procurei e perdi-me. Sentia-o verdadeiramente. Finalmente sentia-o.

Rodei a chave no sentido do desligar. Um policia do outro lado da rua olhava para mim. Saí do carro fui à mala buscar uma mochila com roupa que ia levar à engomadoria. Depois atirei lá para dentro as chaves do carro e bati o grande portão traseiro. Por esta altura estava já encharcado até ao tutano. Dirigi-me à grande avenida e caminhei pela direita em direcção aí.


 

Vadio

Era um cão, era sim. Um cão.
Caminhava lentamente pela rua. Era vadio.
Não sabia que era vadio. Toda a vida fora assim. Via outros cães com trela, mas achava que eles gostavam assim.
Não era muito inteligente este cão.
Mas toda a vida fora assim.
Não ia nunca com direcção nenhuma.
Limitava-se a seguir o nariz.
Via aquele ponto preto na sua frente e queria sempre chegar-se a ele.
Um dia viu-se ao espelho de uma montra. E viu dois pontos pretos. Tentou apanhar o outro. Mas caiu estatelado. Começou a ladrar ao outro cão que lhe respondia ao mesmo tempo. Os outros cães eram estúpidos.
Por fim desistiu.
Outra vez encontrou um rato nas traseiras de um restaurante. Mas o rato não quis brincar com ele. Estendeu-se ao comprido a dormir. Devia estar a gozar com ele. Quando se foi embora, o rato acordou e fugiu.
O cão não sabia se era grande ou pequeno. Achou que devia ser grande porque os outros cães fartavam-se de lhe ladrar. E só se ladra quando se tem medo de alguma coisa. Ele não ladrava aos pequenos.
Os outros cães sem trela diziam-lhe que era preciso fugir da carrinha grande. Mas se ele era grande, porque precisava de fugir? Não tinha medo da carrinha. Aliás, nunca vira nenhuma.
Um dia o cão viu uma cadela. Tentou convencê-la a ser Sra. cão. Mas ela não quis nada com ele. Deu-lhe uma dentada em cheio no focinho. Nunca sentira tais dores. E o ponto negro agora era vermelho e parecia ter aumentado de tamanho.
O cão também não diferenciava gatos de cães. Não sabia. E como era maior que eles tentava muitas vezes saltar para parapeitos, porque achava que se eles conseguiam, ele também conseguiria. Estatelava-se a cada tentativa. Claro que detestava o latir daqueles cães de rabo comprido e orelhas espetadas. Só os encontrava quando ia para a zona chinesa da cidade. Talvez fossem orientais e tivessem vindo com eles. Cães esquisitos estes. Pequenos. Com os olhos em bico e sempre desconfiados.
Um dia o cão viu um rio. Ficou tão contente que decidiu atravessar a nado para o outro lado. Nem pensou. Atirou-se logo.
Um gato que passava no dique da barragem pensou “que dia estúpido para se ir nadar, os homens estão a fazer descargas”
O cão nadou e nadou e nadou e sentiu que as forças lhe faltavam, mas tentou aguentar-se e nadou mais um pouco. Lutando contra a corrente, lá chegou à outra margem. Descansou um pouco e caminhou pela margem. Encontrou uma cerca. Do outro lado estavam outros cães. E tinham comida. Pediu-lhes um pouco. Os cães não lhe ligaram. Então ele pediu comida mais insistentemente. Apareceram dois homens. Saíram da carrinha grande e laçaram o cão com uma corda. Colocaram-no do outro lado da cerca, junto da comida.

Sexta-feira, Julho 25, 2003


 

Imprevisibilidade

1
Estava no emprego. Escrevia a minha carta de despedimento numa velha olivetti. Estava farto do trabalho que me davam. Ia-me embora, não tinha avisado ninguém ainda. Só o Joe sabia. Ele que afinal sempre fora a pessoa com quem menos me dava no escritório. Encontrara-o na casa de banho. Estava no urinol do fundo. Não sei porque o fazia, mas o Joe escolhia sempre o urinol junto da parede. Fui fazer o meu serviço num urinol mais central. Após uns 30 segundos, o Joe diz-me, para meu espanto, “ontem fui levar pela primeira vez na vida a minha filha à escola”. Fiquei sem palavra? A filha do Joe? Ele tem uma filha? Sempre pensara que ele era um dos últimos solteirões cá do escritório. Ou então era gay. Uma filha? Ninguém conhece ninguém nestes cubículos.
Após lavarmos as mãos no momento em que saiamos da casa de banho disse-lhe:
- Joe, és um gajo porreiro. Quero dizer-te que amanhã não venho trabalhar. Vou despedir-me.

2
Estava sentado num banco de jardim enquanto esperava pela minha mulher e lia distraidamente o jornal que estava pendurado num quiosque. Eram talvez umas dez da manhã. Ela estava atrasada. Tínhamos que ir tratar dos papeis do divórcio com o advogado. Foi um divórcio amigável. Não havia posses nem filhos a complicar - éramos uns tesos.
De repente levantei-me e fui comprar uma revista ao quiosque. Apetecia-me fazer aviões. Sentei-me no banco de jardim e comecei a rasgar as folhas da revista. Dobrava-as a meio com cuidado e depois traçava os vincos para fazer as asas. Fiz vários. Caças, aeroplanos, bombardeiros, hidroaviões. Entretanto começou a chover. Podia levantar-me e sair dali para debaixo das arcadas frontais. Preferi levantar voo. Achei que o melhor para tal seria o aeroplano. Porque não tinha motor podia ouvir melhor o silêncio. Sentei-me na cabina. Puxei os cintos de segurança, que embora a viagem fosse curta não se podia descurar esse aspecto, e larguei os travões do aeroplano. O Cessna na frente começava a rolar pela pista. O cabo que nos unia foi esticando e de repente o aeroplano já rolava também. Fomos subindo lentamente, não mais de 3, 4 graus. Havia tempo. Subimos até aos 2500 pés. Aí falei com o Joe na cabina do Cessna, despedi-me e soltei o cordão umbilical que nos unia. Senti uma subida de adrenalina. Voava livre, em silêncio. Como Icaro dirigia-me em direcção ao Sol.

- Vamos? O advogado já deve estar à nossa espera.

“Como sempre, nem um bom dia”, pensei.

3
Estava sem trabalho há três meses. Ia várias vezes com o Joe às corridas de cavalos a Ponte de Lima. Ele continuava no escritório. Nestes tempo tínhamo-nos tornado amigos. Conhecera já a sua filha. Uma garota adorável, cheia de perspicácia, a quem eu falava de jazz e de literatura e que me seguia com aqueles olhos ternos cor de âmbar. Mas estávamos nas corridas. O Joe nas primeiras 5 corridas tinha ganho em 4. Era um dia bom. De repente alguém que estava mais abaixo virou-se para trás em direcção ao Joe e gritou:

- Zetes, dá-me uma dica para a sexta!

- Se te dissesse, todos iam apostar no mesmo cavalo. Ripostou ele, sorrindo. Divertia-se verdadeiramente com todo esta animação.

“Zetes?” pensei eu. “Que raio? Zetes?”

- Olha lá Joe, porque te chamou o tipo Zetes?

- Ora, Zetes é o meu verdadeiro nome. Chamo-me Artur Zetes. O Joe surgiu por brincadeira. Dos filmes do West. Lembraste do cinema antigamente? Daquele que víamos ao domingo à tarde, no salão paroquial. Quando vinha à aldeia o cinema itinerante? Lembraste?

Sim, lembrava-me. O Joe, ou Artur, explicou-me o porquê do nome, e eu lembrei-me do tempo em que via o John Wayne numa tela grande e queria ser como ele. Ter um grande cavalo branco, aquelas pernas arqueadas e o andar desajeitado. Queria poder agarrar a moça de vestidinho rodado nos meus braços e dar-lhe um daqueles beijos cinematográficos. Queria cavalgar atrás de “maus” dando tiros certeiros ao mesmo tempo. Percorrer desfiladeiros e pradarias. Queria conduzir o gado. Queria dormir ao relento junto de uma fogueira e queria comer cobra e matar búfalos, mal sabendo ser uma espécie em vias de extinção. Queria isso tudo e queria também que o filme não acabasse nunca. Queria poder continuar a ver aquelas imagens amareladas pelo tempo, já gastas, com cortes abruptos, porque algumas vezes a máquina de projectar encravava e com a potência da luz queimava alguns segundos de filme, que muito pacientemente o projeccionista remendava. Queria também correr para o meu cavalo branco, feito de uma meia velha e gasta, na cabo de uma vassoura, e queria cavalgar a semana toda na escola, queria mostrar o quão bom era como cowboy aos meus colegas.

Largaram para a sexta. O cavalo em quem tínhamos apostado tinha um jokey novo. Estava mais leve desde a última vez que o vira correr, e ele sabia manejar bem um cavalo. Sabia que não se pode puxar muito pelo cavalo numa corrida longa. Primeiro tem que se preparar o caminho e só no fim acelerar para a vitória. Por isso quando o outro tomou a dianteira não estávamos preocupados. Os cavalos corriam a bom galope. Quando estavam a fazer a última curva o outro entrou na frente. Tinha talvez 10 metros de vantagem. Estava no papo. Não se conseguiria manter na frente a corrida toda. E agora é que o nosso cavalo ia começar a apertar passo. À saída da curva já estávamos lado a lado. Talvez mesmo na frente. Estávamos do lado de fora. O outro parecia começar a fraquejar. Eu e o Joe sabíamos que esta corrida já era. Voltamo-nos para trás à procura da empregada para pedirmos uma bebida para comemorar. Foi quando ouvi a multidão fazer um broaahhhh.. Voltei-me rapidamente. O meu cavalo corria na frente. Mas o jokey não estava lá. Tinha caído. O cavalo acabou por perder fulgor e parou a meio da recta da meta. Contaram-me que o outro arrancou por dentro e manteve-se lado a lado e que por alguma razão o meu cavalo deu um pinote quando o jokey lhe chegou a chibata. Foi completamente projectado e estatelou-se no barro da pista de corridas. Acabara de perder 100 contos. Virei-me para o Joe e disse-lhe que me ia embora. O Joe ainda estava atónito. Olhava para o jokey, no chão, a ser assistido pela equipa médica. Desceu depois de um instante e virou-se para mim sorridente:

- O que acabaste de assistir foi a mais uma prova de que tudo é imprevisível. Nunca tomes nada por garantido. Senão dás-te mal. A vida é como as corridas, David. Por muito bem que a vivamos há sempre algo que pode superar ou gorar as nossas expectativas. Por isso deixa lá o teu dinheiro. Amanhã vimos cá e prometo-te que ganhamos tudo outra vez. Vais ver. Vais ver.

Quarta-feira, Julho 23, 2003


 

Um raio de sol

A esta distância tudo é tão etéreo. Tudo é um passeio ao pôr do sol, onde olhando o chão apenas vejo as sombras alongadas dos nossos corpos. Conversamos sobre nada. Sobre tudo. Eu aqui vejo a tua sombra e tento imaginar o que está para lá do meu plano. Tento perceber-te sempre que as nossas sombras se cruzam. Se misturam. Porque se misturam. Tento gravar a partir das sombras, os teus gestos. Porque os fazes? Como os fazes? Afinal estou tão a norte de um outro sul. À distância da eternidade. À distância de uma fracção de segundo. O tempo que medeia entre um raio de sol tocar o teu corpo e desenhar a tua sombra.

Segunda-feira, Julho 21, 2003


 

Sangue

Vejo o teu sangue espalhado pelo chão. Vejo-o espalhado ao anonimato. Em tons de vermelho. Em tons de purpura. Em tons de todos os tons de violência. Em todos os tempos de cólera há um momento de descanso. Este é o meu. Violento como sempre. Violento como belo. Sempre. Ou então de uma ternura cândida.. mas agora não me apetece.


 

Filmes

Enquanto assisto a “Tudo sobre a minha mãe” do Almodovar.

Fade in

Bebei um copo de verde branco enquanto jantais. Vede uma peça de teatro. Cortai as unhas quando se sentarem no sofá. Cortei as unhas. Vê o teu cabelo caindo lentamente. Vê a doença a aproximar-se de ti. Não me toques. De vez em quando uma palavra solta sai da televisão e impregna os ouvidos. Um escritor que como eu escreve a lápis. Chegou o Inverno. Ou o Outono. Regressa a casa em tons de vermelho. Explosões de vermelho. Idilicamente uma perca. Um acidente. Uma cidade vazia. Um choro. Um desespero de mãe. Finalmente revelada como mãe. Já cortaram as unhas? Não tem tesouras ou ... corta-unhas? Tentem roer. Fi-lo durante anos. É fácil. Cuidado, não engulam... se gostarem engulam... mas isso ainda é pior que cuspir as unhas. Uma operação. O indestrutível e o quebradiço. Se todos formos quebradiços que procuramos então? Eternidade? Amor? Compaixão? O que somos senão aquilo que os outros consideram sermos? Embora possamos ser adição ou subtracção... Embora sejamos aquilo que procuramos. Se nos encontrarmos alguma vez. O mundo morrerá contigo lá dentro. Engolindo-te num túnel ventoso. Escuro. Em direcção a nada. Todos temos margens. Todos somos franjas da sociedade e todos um lado escuro não revelado. Além, depois do túnel. Ele está lá. Quer comer. Já bebeu o seu verde? Beba outro. Os guardas prisionais caminham para lá e para cá. Está a passar o efeito do álcool. Tocam-me no canto da boca com os dedos e perguntam-me quem me magoou. Fui eu. Desajeitada. Caí pelas escadas. E lá estava aquele carrossel. Onde cavalos de fazer sonhos sobem e descem, sobem e descem sem cessar. Uma freira. Uma reza. Um serviço de chã em cima da mesa da sala e não há chaleiras nesta casa. Uma viagem. Fico sóbrio, o texto deixa rapidamente de fazer sentido. Termino já. Uma viagem. Procuro essa casa. Esse local do qual não me lembro. Onde a coerência seja mais que uma palavra. Onde possa responder às questões que coloco. Onde encontre o meu passado e procure a partir daí o meu futuro. Mas será? Não. Quero ver o meu passado apenas para me lembrar dele. Não para fazer dele o meu futuro. Uma viagem. Um desejo. Um prazer ter-te visto ali na sombra em silêncios cúmplices. Onde o cinema provoca friorentos arrepios, onde tu e eu estávamos observando a imagem de Bogart e imaginando a areia quente de Casablanca. E o fumo de um charuto incendiando a noite. E onde celebramos com verde branco. Terceira taça.

Fade out


 

Catarina

Ao reler algumas coisas dei por mim a ser umbiguista. A falar do meu dia a dia. Não quero falar do meu dia a dia. Quero falar da Catarina. Sim da Catarina. Alguns sabem quem é a Catarina. Outros não. Nasceu e não fez ainda sequer 15 dias. Já vi uma foto perdida num jornal de S. Paulo. Acho que era de S. Paulo. Se não for, paciência. Agora o porquê da importância do nascimento da Catarina? Porque com o nascimento dela, as hormonas da Clarah vão voltar a níveis normais e provavelmente iremos assistir a novas fúrias contra o notebook. Não no tom antigo, que a Clarah é mais madura, é mãe, e já prometeu que seria diferente. Mas antes porque uma escritora, goste-se ou não do que ela escreve, sente a falta da escrita como sente a falta do ar. E se escrever com uma mão apenas, paciência. Escreverá a metade da velocidade de antigamente. Mas escreverá.


 

Férias

Continuo de férias. Não sei que dizer. Não tenho nada a dizer embora tenha muito para contar.

Tenho saudades de algumas coisas. Quem quiser saber do quê, não pergunte que não vou responder.

Algumas coisa estão perfeitamente desorganizadas na minha vida. Uma delas é a minha agenda.

Podia escrever sobre o meu dia. Não tenho muito a dizer. Podia falar-vos em duas linhas do que aconteceu. Mas não. Dormi. Hoje dormi. Não aconteceu nada. Mas serviu para pensar uma coisa que acho vou começar a por em prática. A sesta depois de almoço. Uma coisa fantástica.

As formigas abandonam rapidamente a praia aos magotes. Já repararam que...
Estou de férias. Sem tempo para circular pela net, sem tempo para saber de amigos, sem tempo para pensar senão neste sol abrasador. Por isso aqueles que me quiserem falar, podem apanhar-me no telefone. Bem... o telefone normalmente fica em casa.

Domingo, Julho 20, 2003


 

3 min – 3 mulheres

Da conversa com uma amiga, numa destas noites, surgiu uma ideia da realização de um filme curto, de 3 minutos apenas, que seria acompanhado pela música de Duke Ellington, “Trombone Buster”. Surgiram várias ideias, mas a última seria a de contar 3 histórias de um minuto, que no fundo não seriam mais do que a repetição de uma rotina matinal de uma mesma mulher, cronologicamente invertidas, apenas se evidenciando este passar do tempo por pequenos sinas perceptíveis apenas ao mais atento. Entretanto tendo pensado mais neste filme, acho que faz mais sentido utilizar três mulheres diferentes. De estratos diferentes, de aspectos diferentes, e em cada minuto filmar aquilo que é comum. Aquilo que as une. E o que as une pode ser tão diáfano como um gesto de cabelo, o tocar ao de leve alguém na rua, olhar distraidamente para uma montra na avenida. Penso que se alargará a mensagem se forem utilizadas três mulheres, nas mesmas vidas que se confundem.

UPDATE: Filmado a preto e branco com grandes angulares. Com muito contraste na fotografia. Para que se possa ver a mulher no centro e se percepcione o seu mundo em volta.

Esta história vai ter que ser escrita sobre três mulheres que vivem longe umas das outras. Não pode haver sequer a possibilidade de poderem pertencer mundos próximos.


 

\\

É dia.
Um dia
Simplesmente caiu a noite. A noite foi caindo.
Repetição
Repeti o passado aqui
Que sou Um
Ser caído. Caí
Em ti ou tu em mim?


 

AVISO

A verdadeira última vez que falo de blogues.

Estou a preparar o fim de algumas coisas neste blog.
Ninguém anuncia o fim. Ninguém anuncia o fim de um blog. Ninguém anuncia o fim do que quer que seja a menos que esteja à espera que lhe digam para não continuar nesse caminho. E esteja apenas à espera que lhe façam uma festa nos ombros e se preocupem apenas com o seu menino. Um menino que nos suga o tutano tentando perceber onde finalmente o leitor fica sentado. Onde colocar o leitor nesta história. Uma história sem sentido. Um fim sem sentido. Um blog que é um caminho para um ou um fim? Para dizer alguma coisa a alguém? Como tocar alguém do outro lado desta linha? Essa dúvida assola qualquer um que se preocupe com o que escreve. Assim. Vou deixar de ler blogues. Ou antes, vou reduzir a minha lista de leituras. Não vou procurar mais blogues. Aqueles que aqui vierem, que me quiserem enviar uma lembrança, serão bem vindos. Em resposta visitá-los-ei, mas não garanto mais que uma leitura na diagonal a esses. A sua leitura provoca em mim um preocupação demasiado grande. Lendo-os torno-me o leitor que sente. E quando regresso ao meu mundo e aos meus textos, vejo o que publico com os olhar de leitor e não me entendo. Por isso não vou ler mais blogs. Não me quero preocupar com o que o leitor sente, porque dessa forma deixo de sentir. Quero apenas sentir-me, e sentindo-me, se tocar alguém, então melhor ainda. Senão? Senão, vou apenas continuando aqui, sentado nesta poltrona em frente à minha smith-corona, como sempre, sem preocupações. E é a ausência destas preocupações que me faz feliz. Há coisas que não preciso. Há coisas que não quero. Desculpem-me os ofendidos.

Sábado, Julho 19, 2003


 

Anzol

E para terminar, que vou fechar a janela,

Ai eu já pensei mandar pintar o céu
Em tons de azul, p'ra ser original
Só depois notei que azul já ele é
Houve alguém que teve ideia igual

Eu não sei se hei-de fugir
Ou de morder o anzol
Já não há nada de novo aqui
Debaixo do sol

Já me persegui por becos e ruelas de horror
Caminhos sem saída
Até que me perdi sozinha sem saber de cor
Pintar a minha vida
Eu não sei se ei de fugir ou morder o anzol
Já não há nada de novo aqui debaixo do sol


Anzol - Rádio Macau


 

Amanhã longe demais

Ainda outra janela do meu passado,

P' la janela, mal fechada
Entra já a luz do dia
Morre a sombra, desejada
Numa esperança fugi um dia

Foi uma, noite sem sono
entre saliva e suor
com um travo, de abandono
e gosto a outro sabor

Dizes-me até amanhã
que tem de ser, que te vais
porque o amanhã, sabes bem
é sempre longe demais

acendo mais um cigarro
invento mil ideais
só que amanhã sei-o bem
é sempre longe demais

P' la janela mal fechada
Chega a hora do cansaço
Vai-se o tempo desfiando
em anéis de fumo baço


Amanhã longe demais - Rádio Macau



 

125 Azul

Na janela do meu passado,

Foi sem mais nem menos
Que um dia selei a cento e vinte cinco azul
Foi sem mais nem menos
Que me deu para arrancar sem destino nenhum

Foi sem graça
Nem pensando na desgraça que entrei pelo calor
Sem pendura
Que a vida já me foi dura para insistir na companhia

O tempo não me diz nada
Nem o homem da portagem na entrada da auto-estrada
A ponte ficou deserta
Nem sei mesmo se Lisboa não partiu para parte incerta

Viva o espaço
Que me fica pela frente e não me deixa recuar
Sem paredes
Sem portas nem janelas nem muros para derrubar

Talvez um dia me encontre Sol
Assim, talvez eu me encontre Sol

Curiosamente
Dou por mim pensando onde isto me vai levar
De uma forma ou d´outra
Há-de haver uma hora p´rá vontade de parar

Só, que à frente
O bailado do calor vai me arrastando p´ró vazio
E com o ar na cara
Vou sentindo desafios que nunca ninguém sentiu

Talvez um dia me encontre
Assim, talvez eu me encontre

Entre a dúvida do que sou
E onde quero chegar
Um ponto negro
Quebra-me a solidão do olhar

Será que existe em mim
Um passaporte para sonhar
E a fúria de viver
E mesmo a fúria de acabar

Foi sem mais nem menos
Que um dia sulou a cento e vinte cinco azul
Foi sem mais nem menos
Que partiu sem destino nenhum

Foi com esperança
Sem ligar muita importância àquilo que a vida quer
Foi com força
Acabar por se encontrar naquilo que ninguém quer

Mas Deus, leva os que ama
Só Deus, tem os que mais ama.


Trovante - 125 Azul


 

Jazz na Praça da Erva

Antes de sair de Lisboa perguntaram-me quando era o festival de Jazz de Viana. Ora aqui fica o programa dos habituais cinco dias, desta vez com tempo, para que possam planear a visita.

Dia 30 – Espectáculo "Ondas" de Paula Oliveira – Voz e João Paulo Esteves – Piano
Local: Teatro Municipal Sá de Miranda, às 22.30 H.

Dias 31 – Espectáculo "Jazzar em Português"- Zé Eduardo Unit
Local: Praça da Erva, às 22.30 H.

Dia 1 – R & B - Burdette Becks (USA) – voz/flauta e Rico Southee (Porto Rico) – guitarra
Local: Praça da Erva, às 22.30 H

Dia 2 – Stanley Jordan & Novecento "Groove Machine"

Dia 3 – "El Concerto de Sevilla" Trio Carlos Benavent: Carlos Banvent – baixo, Jorge Pardo – sax/flauta, Tino de Geraldo – percussão (Músicos da banda de Pacco de Lucia)
Local: Praça da República, às 22.30 H.

Quinta-feira, Julho 17, 2003


 

A aldeia estava coalhada

Bate o luar
nas casas.
Redonda chama
que num buraco enche
o que vaza
espelho branco
que a escaldar cega
a noite assombrada.

Luar, bago de orvalho:
Beijo aos leprosos
Na campa rasa.

Fernando Namora in Estamos no Vento

Quarta-feira, Julho 16, 2003


 

MESH

mesh n. \mesh\, v. i.
a. an openwork fabric or structure; a net or network: a screen of wire mesh
b. an interconnected or intersecting configuration or system of components
c. coordinate in such a way that all parts work together effectively
d. to engage with each other, accord with each other; harmonize.


meshmedia:
dedicated to discovering the cutting edge of digital design in print and audio / visual experimentation.

Em forma de despedida de férias aqui fica um presente para explorarem.



 

FÉRIAS

Finalmente vou descansar um pouco. Se passar por algum cyber café virei aqui dizer onde ando. Primeiro destino: (naturalmente) Viana do Castelo. Até já.


 

Chico por Chico

Sem mais demoras, o CVM entrevistou, eu ouvi, adorei e agora mostro. Chico César no Pessoal e Transmissível da TSF

Terça-feira, Julho 15, 2003


 

Segunda-feira, Julho 14, 2003


 

Como fazer poesia

Lição número três | liç.2 | liç. 1

in A IMORTALIDADE de Milan Kundera

Eis o mais célebre poema alemão de todos os tempos, o poema que todas as crianças têm de aprender de cor:
Todos os cumes
Estão em silêncio.
No alto de todas as árvores
Apenas sentes
Um leve sopro;
Os pássaros emudecem na floresta.
Tem paciência, em breve
Também tu dormirás.

A ideia do poema é muito simples: a floresta adormece, tu vais também adormecer. A vocação da poesia não é deslumbrar-nos com uma ideia surpreendente, mas antes fazer com que um instante do ser se torne inesquecível e digno de uma insustentável nostalgia.


Não podia concordar mais. Sinto-me pequeno para comentar este mestre. Mesmo assim, nesta busca por explicações sobre poesia, esta é uma das mais simples e belas.

Domingo, Julho 13, 2003


 

FRAUDE.ORG



Depois de quase dois meses de ausência, a Fraude regressou, para meu grande contentamento. Retomou o local de destaque que já teve ali à esquerda.

Sábado, Julho 12, 2003


 

O vestido



Ela estava descalça e caminhava por entre as margens do Sava em direcção ao Danúbio. E levava na mão uma ramo de flores de laranjeira. O vestido era velho e notava-se ter sido usado. Dos olhos corriam-lhe lágrimas que lhe desmanchavam a pintura e lhe traçavam linhas escuras pelas maçãs do rosto. Trazia os ombros caídos e acho que nem sentia que trazia o pequeno ramo na mão, tal era o abandono a que se prostrava em cada passo que dava. Diria que caminhava em direcção ao Danúbio, mas eram tão errantes os seus passos. A dada altura parou, olhou para trás a ver se alguém a seguia e depois atirou-se à água...

A imagem é pertença de KATARINA ZARIC, artista nascida em Beograd.



 

Como fazer poesia

Lição número dois | liç. 1

Poesia é uma coisa estranha para mim. Não faz sentido tentar escrever um pequeno conjunto de palavras e tentar carregá-las de mais significado do que aquele que for prático, realista e moralmente defensável. Dificilmente alguém a lerá. Muito menos alguém gastará dinheiro para a comprar. Destruirá qualquer conversa de festa admitir que se escreve poesia. A menos que seja poeta, ninguém o irá admitir no seu Curriculum Vitae. E ainda assim...

E ainda assim há um apetite enorme por poesia...
[leia o original completo]
(tradução livre por mim mesmo)


 

Sangue de Fogo

Estava ali a ver-te em sangue. Estava a ver-te ouvir os violinos, a ver-te dançar lentamente detrás das labaredas desta fogueira. Arde, arde friamente essa dança. Arde sempre o sangue que jorra morno.


 

17-25

Li noutro dia que, ou se escreve poesia quando se tem entre 17 e 25 anos, ou então não se escreve mais. Será isto verdade? É verdade que esta é a idade de nos perdermos em versos, muitas vezes de amores, naturalmente. É idade de nos descobrirmos, de despertarmos para aquilo que é belo, que é mais do que podemos abraçar. Ora depois dos 25? Eu já passei os 25. Não se pode escrever? Quais os motivos para escrever poesia depois. Será que depois dos 25 se escreve racionalmente o irracional? Será que se escreve pelas razões erradas? Será que depois dos 25 já não estamos apaixonados? Será?

Sexta-feira, Julho 11, 2003


 

Com o andar da idade...

O homem não suporta sempre a mesma esposa, nem o mesmo Deus. É um nómada de origem. Parado, degenera em bicho doméstico ou reumático, - aborrecido. Destila negro.
Teixeira de Pascoaes (1877 - 1952)
Aforismos


 

URGENTE

Procuro inspiração. Quem encontrar um pacotinho pequeno, azul, com uma inscrição chinesa na caixa a dizer "da manhã a névoa sobrevoa o vale", por favor entre em contacto comigo. Essa caixa contém o bem mais necessário para a minha plena cura: A minha inspiração. Se por acaso quiser espreitar dentro da caixa e sentir um arrepio na espinha assim como um torpor na cérebro, é porque também faz efeito em si, pelo que aconselho-o a ficar com uma porção de inspiração para si a me enviar o que restar na caixa. Se por acaso não sentiu nada, então é porque você é já uma pessoa inspirada e não precisa destes subterfúgios para escrever. Eu entretanto vou tentando substituir a falta com cerveja preta que tenho no meu frigorífico, mas infelizmente já só tenho cerveja para mais 3 dias. Por isso a urgência deste pedido. Obrigado.


 

Um pouco de paz.

Hoje não me apetece falar-te. Não vez que me incomodas? Estou aqui sentada e não quero que me digas o que fazer. Não quero que me digas o que beber, ou como me devo sentar ou que este tom de batom não fica bem com o meu tom de pele. Estou cansada de ti. De te aturar as birras, o cheiro a álcool. Estou cansada. Quero ter um pouco de tempo para estar apenas sentada, de pernas debaixo do rabo como não gostas, aqui neste maldito sofá de 300 contos. Não quero saber o que estás a fazer e não quero saber o que estás a pensar. Apenas te quero longe da vista. Vá, vai. Não me chateies. Faz de conta que não estou aqui e vai para o teu escritório ler e escrever merdas para a net. Deixa-me sossegada.
Como eu aspiro a um pouco de paz.

Quarta-feira, Julho 09, 2003


 

spot

Há boas surpresas de vez em quando. Esta foi tão boa que merece aqui o destaque e vai directa para a lista de links aqui à esquerda...
litle black spot


 

Chico e Caetano

Não pude deixar de colocar aqui estes dois links. Só porque os admiro muito e porque acho que são incontornáveis:

Caetano Veloso

Chico Buarque

Só peço desculpa por estar a colocá-los num mesmo post, que eles mereciam mais. Sou preguiçoso.


 

Mentiras

Uma mentira só é uma mentira se for descoberta. Até lá, é a realidade apreendida num acto de fé.


 

Os meus carneiros são letras

São cinco, nove, vinte as voltas que dou antes de adormecer. Olho lentamente os ponteiros do relógio e caio submisso ao desespero. Sei que não estarei só nesta caminhada. A noite será longa. Eu, o Jack e as folhas em branco da minha smith-corona. Mas mesmo assim desejava dormir. Estou cansado. O meu corpo clama por descanso. Mas o meu corpo não interessa. Serve a minha mente e trato-o muito mal. Por isso passo dias sem dormir. Passo semanas a dormir demais. Desrespeito-o como se desrespeita um trapo, e mais tarde queixo-me. Faço desporto, sim, faço. Não pelo corpo, mas pela competição com uns amigos. Não me importo de perder. Perco muitas vezes, mas dá-me satisfação aquelas vezes que ganho. São poucas com certeza, com o corpo neste estado, mas quando surgem fico satisfeito. Dois meses. Há dois meses que não durmo quase nada. Hoje vou dormir. Acho. Mas sei também que o corpo vai revoltar-se e vai-me fazer ter dores e vai-me obrigar a dar voltas e voltas e voltas... e volt... e vol.. tas... vo..ltas... zzzzzzzzzz


 

um segredo revelado

Ok. Quando eu era menino... sim já fui... e mesmo quando era graudo... será que sou? Adorava jogos de pc. E tanto adorava que cheguei a ter um website com batotas, era a fábrica dos jogos. Ora com o tempo isso passou e agora é história. Aliás, os últimos anos do site foram mesmo penosos. Sim... eu já não jogo jogos de computador. Só aqueles do Windows quando espero que algum download acabe. Por isso podem imaginar a surpresa agradável que foi quando encontrei este link com música tão famosa e com uma reprodução dos originais tão bem feita. Atenção, demora a carregar. Muito. Mas se tiverem a minha idade é imperdoável não ver este site.?

Terça-feira, Julho 08, 2003


 

Tudo é relativo

Tudo é relativo
Tudo é relativo
Tudo é relativo
Tudo é relativo
Tudo é relativo
Tudo é relativo
Tudo é relativo
Tudo é relativo
Tudo é relativo
Tudo é relativo
Tudo é relativo
Tudo é relativo
Tudo é relativo
Tudo é relativo
Tudo é relativo
Tudo é relativo

a quê?

Este processo de auto-mentalização não pega.

Segunda-feira, Julho 07, 2003


 

Jorge Luis Borges

Um excelente website sobre Jorge Luis Borges, descoberto na íntima fracção.


 

Perda da Pedra

Quando ele olha a pedra, a perda é.
É?
Perde ele, perdemos todos.
A pedra prova que perdeu.
Mas perdeu a vida.
Não perdeu, olhou a pedra.
A pedra dura, não perde, perdeu quando a viveu.
Olha a pedra e perde o eu.

Domingo, Julho 06, 2003


 

pomba-paz & pomba-guerra

negra

pomba
paira no ar
branca pomba
na terra
contempla
negra
pomba
procura trazer
terror - desgraça
dor
branca - pomba
inerte
v
e
r
t
e de olhar
lágrimas
de paz
que caem
sem molhar

Hugo Pontes
(de reVIXta)


 

Pecado pecado

Eu sei, não resisti. Mea Culpa. Depois de andar este tempo todo a tentar não me comprometer, cai em tentação. Visitei o Abrupto do Pacheco Pereira. Vá lá, eu sei, não devia. Mas visitei. Pronto. Está feito. Mal não há-de fazer. Não me surpreendeu. Tem um estilo próprio e naturalmente fica ao gosto de cada um voltar lá. Pessoalmente não me entusiasmou muito a sua leitura, mas também sendo honesto, apenas li na diagonal, com medo que algum fantasma me apanhasse a cometer tal pecado.


 

Dias de Funerais

Um dia estamos todos cientes que somos invencíveis, no outro somos apenas pequenos grãos de areia. Não somos nada. O tempo passa lentamente para uns enquanto para outros anda demasiado célere. Morreu Barry White, morreu a voz do amor, dizem. Mas morrem a cada instante pessoas que não conhecemos e por vezes isso faz-nos ficar ainda mais tristes. Pessoas que nos estão próximas e ao mesmo tempo tão distantes. Desconhecidos. Todos os dias há funerais. Mas nunca julgamos ter que ir a um. Porque afinal quem conhecemos não morre. De vez em quando sabemos que um amigo nosso teve que ir a um funeral. Mas nunca de ninguém conhecido. Os nossos conhecidos sabem como escapar à morte, como a fintar.
Vou procurar uma gravata preta.


 

Escrevo em Notepad

Ainda há quem se lembra de um programa chamado Manuscript? Ainda se lembra de quando o Word 2.0 era uma miragem e se escrevia tudo em WordStar, ou então no Edit do Dos? Nesse tempo reinavam as impressoras de 9 agulhas que faziam um barulho infernal e sonhava-se em ter dinheiro para comprar uma de 24. E o Manuscript, era o primeiro programa a permitir ter um pré-visualizador da página impressa. Não dava para escrever, mas pelo menos dava para ter uma ideia para ver como ficava. Escrevia-se os textos sem estas mariquices do Word e conseguia-se trabalhar bem assim. Não percebo algumas queixas quando me vem dizer que não conseguem por o Word a trabalhar como eles gostam. Eu escrevo em notepad.

[update]
Para não ser acusado de falsidade, eu também não escrevo só em notepad. Também utilizo uma bela Smith-Corona.


 
Afinal eles andam aí. Andam sempre aí os vampiros.


 

Yugo Nakamura

/ - uma linha
// - duas linhas

Há pessoas que fazem mais pela web do que aquilo que inicialmente se propuseram. Com o surgir do flash e dos websites dinâmicos todos começaram a fazer produções fantásticas. Mas todas iguais. Todos se copiavam. Até que em '98 surgiu Yugo Nakamura. Este senhor revolucionou o que até então se fazia de webart. O seu portfolio é impressionante e é sem dúvida uma lição de humildade para todos os que se quiserem aventurar no webdesign mais conceptual. E é também uma lição de simplicidade e bom gosto. Yugo prepara uma nova série, que espero, consiga novamente quebrar barreiras e despertar novas paixões. É uma marca incontornável da Web. Quem não o conhece, quase arrisco dizer, comete um crime.



 

2 linhas? Sim!

Para escrever um texto em menos de duas linhas diga sempre que vai a algum lado, mas acabe sempre por ficar no mesmo sitio. Essa capacidade de acabar o que começa com o começo do que começou, é uma vantagem quando propositado. Mas pode ser uma grande dor de cabeça para quem quer escrever um texto em menos de duas linhas. Faz-me lembrar isto um projecto de gonzo jornalismo. Deixa-me pensar onde está o link? Já esteve aqui eu sei. Ah! Encontrei. Pena é que não se actualizem há... 4, 5, 6 meses? Não. Mais. Mas enfim. Não se pode ter tudo. E não se escreve facilmente um texto em duas linhas.

Sexta-feira, Julho 04, 2003


 

Nabuco

Muito tarde fez teatro, Nabuco. Nabuco gostava de teatro. Lá, em Angola, sempre que podia via o teatro do estado. Mas nem sempre podia. Depois veio para Portugal e em Portugal sempre que podia via teatro. Gostava de ver os actores se transfigurarem. Nabuco gostava mais dos actores que das actrizes. Achava as vozes delas muito esganiçadas. Um amigo levara Nabuco a ver uma revista. Teve que sair a meio, por causa do barulho que elas faziam. Nabuco gostava de peças verdadeiras. Que contassem alguma coisa dos homens. Não gostava daquele ilusão de falsa felicidade. Nabuco nunca teve oportunidade de fazer teatro. Trabalhava na construção civil e seu sonho era tirar um curso de hotelaria. Poderia depois seguir para Angola e trabalhar com um primo que tinha um negócio no Roque Santeiro. Uma vez, Nabuco disse que se pudesse fazer teatro, seria o homem mais feliz de toda a África. Um dia Nabuco teve sua vontade concretizada. Era preciso um actor para uma peça. Precisavam dele para um papel pequeno. Era uma peça, quase de escola, quase amadora, sobre a história de Portugal. Nabuco fez de nativo que recebia os portugueses em sua terra nos descobrimentos, fez de escravo que os portugueses levaram para o brasil e fez de brasileiro que conquistou a independência. Nabuco esteve bem. Muito bem mesmo. A mãe estava na plateia e chorou. O pai não viu. Tinha morrido na guerra. Mas o espirito dele viu e chorou. Nabuco chorou também quando saiu de palco pela última vez.
Amanhã Nabuco vai para Angola trabalhar com o primo no Roque Santeiro.


 

Como fazer poesia

Lição número um

Escrever uma ou várias frases em várias linhas:

Quando estava perdido olhei para o mar e não te vi lá nessa imensidão que nos protege. Olhei a lua e não estavas lá! Procurei-te por toda a parte e não te encontrei. Que fazes tão longe de mim? Porque não me deixas morrer de amores por ti? Serei eu assim um ser tão desprezível?

Meter vários enters no meio do texto.

Quando estava perdido olhei
para o mar e não te vi lá nessa imensidão
que nos protege. Olhei a lua e
não estavas lá! Procurei-te por toda a
parte e não te encontrei. Que fazes tão longe de
mim? Porque não me deixas morrer
de amores por ti? Serei
eu assim um
ser tão desprezível?


Agora o truque: Eliminar algumas palavras do meio de forma a que se perca o sentido. Artigos são um bom começo.

perdido olhei
mar e não te vi lá nessa imensidão
que nos protege. lua e
não estavas lá! por toda
não te encontrei. fazes longe de
mim? não deixas morrer
por ti. Serei


desprezível?

Agora que está ininteligível, basta dar-lhe algum retoque final e por fim arranjar um título que nada tenha a ver com o texto original.

A lula.

perdidamente olhei-o
mar. não te vi lá. imensidão
que nos protege. lua e
não estavas! por toda a razão
não te encontrei. longe de
mim. não morrerei
por ti. Serei


desprezível?

Agora, basta fazer algum editor acreditar que somos uns génios da poesia e que este poema revela a verdadeira essência das sociedades pós-modernas, e que nos tentáculos da lula temos que ter cuidado com as nossas decisões. Mostra ainda a podridão do tratamento que damos ao nosso corpo e à forma displicente com que tratamos a natureza. Depois talvez editem um livro, repitam o movimento de levantar o copo de whisky muitas vezes, que é a única forma de não desesperar com tantos pseudo-intelectuais que vos adoram. E se forem realmente capazes de produzir lixo como este em quantidade, talvez consigam comprar um atrelado novo para irem acampar, com o dinheiro das vendas dos livros. Para quê? Reconhecimento? Não sei. Quantos poetas era capaz de reconhecer na rua, se passasse por eles? Como podem ver, a poesia não leva a nada, o que nos leva ao último passo da construção poética:

Nunca mostre a sua poesia a quem tenha lido este texto.


 

Amor perfeito

Normalmente encontro-te sentada no beiral daquela escadaria. Não sei porque o fazes, mas todas as manhãs estás lá quando eu passo. Ainda não reparaste em mim, acho eu. Mas eu sim, reparei. Reparei que trazes sempre um vestidinho de cores garridas, que trazes sempre um relógio de marca na mão esquerda. Nem sempre o mesmo. Sempre a condizer com as cores do vestido. Trazes sempre uns sapatos de meio salto apropriados. Deixas ver os tornozelos, com se fossem a porta de um encantamento. Calças umas meinhas brancas, de renda. Não te vislumbro o rosto, que sempre que passo estás de costas. Esperas algo. Talvez o autocarro. Por vezes não estás sentada. Encostas-te apenas ao beiral. Nesses dias não te vejo os tornozelos. Um dia vou aí acima para ver o teu rosto, quem sabe para te convidar para um café ali na “Pastelaria Alva”. Talvez aceites. Ou talvez olhes para mim com desdém e aches que não te mereço. Em todo o caso um dia vou encher-me de coragem e vou até aí. Até lá vou passando todas as manhãs, carregando um fato azul escuro que me obrigam a vestir neste tempo de calor e uma pasta para parecer intelectual. Não sei o que pensam os doutores. Se é com este aspecto que pensam que vou render mais. Ao fim do dia tenho a camisa toda manchada. Tenho que desapertar a camisa e tento disfarçar os pingos de suor que me correm pela testa. Normalmente demoro-me um pouco na estação e faço sempre por perder o das 18:20. Sei que também apanhas esse e não quero encontrar-me contigo parecendo um porco. Apanho o das 19 que vai mais vazio. No outro dia atrasaste-te e apanhaste também o das 19. Fiquei sem saber o que fazer. Fui para outra carruagem, mas tu sentaste-te virada para mim e conseguia ver-te através do vidro separador. Acho que nunca tinha feito uma viagem com os olhos no chão. Não queria que me visses. Amanhã vou novamente passar ali nas escadas e vou-te ver sentada no beiral. Como não te vais lembrar de mim, vou parar, olhar distraidamente o relógio, para que nada percebas, e depois vou olhar levemente para ti. Quando te mexeres, prosseguirei a marcha. Talvez um dia repares que existo.

Gostava de escrever a versão feminina deste amor impossível. Gostava de dizer que ela sabia quem ele era. Que cada vez que ele passava, ela ficava em biquinhos de pés. Que não percebia porque nunca se cruzaram, já que viviam perto e trabalhavam ambos em Lisboa. Que achava estranho um dia tê-lo encontrado no comboio e que ele a ignorara e que fugira até dela para outra carruagem. Não percebia porque todos os dias passava por ela de manhã e que nunca a se cruzara directamente com ela. Nunca lhe falara. Não percebia porque maquinalmente descia um lanço de escadas, parava e depois olhava discretamente para ela. E que quando ela procurava olhar para ele, anuir com o olhar, cumprimentar apenas, ele fugia, descia galopando os restantes degraus. Um dia até deixara cair a pasta com tanta pressa. Gostava de escrever que ela também gostava dele, mas não sou capaz. Não sou capaz porque não acredito no amor. Nunca duas pessoas se amam de igual modo. E aqui elas teriam que se amar assim. Puramente. Igualmente. E com não acredito que isso seja possível...

Um dia um eléctrico saiu dos carris. Galgou meio lanço de escadas e apanhou mortalmente o Manuel. Nesse preciso instante, quando se voltava para ver a tragédia que decorria, a tia Rosinda que colocava a roupa a secar na varanda, largou o lençol, que foi embater na floreira da dona Carminda atirando com um vaso de gerânios ao chão. Este caiu aos pés de Maria que com o susto deu um salto do beiral e foi para o meio da rua onde, tragicamente, foi apanhada por um taxista que seguia atrasado para a estação de Sintra.

Primeiro comentário.. antes de qualquer um dos vossos...
Este final tipicamente camiliano é lindo. Camilo Castelo Branco tem uma propriedade que eu gosto particularmente (forma gentil de dizer “gosto muito”): Quando não sabe o que fazer com uma personagem... mata-a. Aqui, como é óbvio, não sabia que fazer com estes dois entediantes personagens. Logo, adeus bye bye.

Quinta-feira, Julho 03, 2003


 

Primeiro dia de férias

A minha t-shirt estava suada e as minhas cuecas também. Por causa destas merdas é que gosto de vir para a praia sozinho. Não há “amor, gostas de mim?”, nem há “tens a certeza que não queres ter filhos?” nem muito menos “nunca te casarás, se eu morrer?” e acima de tudo não fica um tipo apeado às 4 da tarde numa estrada de terra batida com 35ºC à sombra e a 30 km do hotel. Fogo, estou todo suado. Maldita gaja. Para o ano vai cada um para seu lado. Eu vou com os gajos para Espanha. Ela que vá com as amigas para parte incerta. Malditos humores. Será que passa alguém? A esta hora está tudo a torrar nas praias. Ninguém se vai embora. Nem uma sombra para me sentar. Acho que vou descalçar-me. Pelo menos sempre não sentia os pés tão inchados.
Ao fim de uma meia hora vi um carro ao longe. Não vi um carro, mas antes o pó que ele levantava. “Afinal a gaja veio-me buscar”. Menos mal. Sempre posso tomar um banho antes do jantar. Deixa lá ver o que ela diz. O carro parou:

- Entra!

- Então? Voltaste?

- Sai!

- Pronto, pronto, eu estou calado. “Nem pensar em deixar fugir outra vez este carro.

Andamos 10 km e estávamos à entrada da estrada de asfalto. Uma daquelas que atravessam o Alentejo de norte a sul e que só são muito concorridas quando é verão.

- Sai! Para a semana mando-te as tuas coisas lá de casa. Escusas de tentar ir buscá-las.

E arrancou. Deixou-me ali. E para cúmulo estava descalço. Tinha deixado as botas no caminho lá atrás. E o alcatrão estava quentíssimo. Derretia ao sol. Eu continuava suado, encharcado até às cuecas e agora estava em processo de divórcio. Nada mau para o primeiro dia de férias.


 

Quem se julga ele?

Um hotel iluminado por luzes de neon chama por mim. São belas estas luzes. Caminho passo ante passo. Entro. Vejo homens de cigarrilhas e vestidos de linho branco. Vejo mulheres de lantejoulas agarradas em seus braços. Vejo empregados carregando atarefadamente bagagens para o interior. Ah. Lá está ele. Vem a sair. Caminho mais um pouco. Aproximo-me. Quando vai a passar puxo da arma.

BANG BANG

Imediatamente senti que o sangue me faltava nas pernas e que alguém me segurava no braço. Caí e pouco depois perdi os sentidos. Acordei no cárcere, onde me tinham deixado um jornal do dia. Em letras garrafais dizia:

DAVID RODRIGUES SOBREVIVE A ATENTADO NO CASINO DO ESTORIL

Falhei. Porra! Falhei mais uma vez. Da próxima ponho-lhe uma bomba no carro.


 

Monsanto

Vejo que meus escritos são cada vez menos coerentes. As páginas sucedem-se e não consigo dizer mais nada. Assim vou ler uma passagem do livro que estou a ler:

«Apesar disso, Monsanto ainda tem mão no tempo. É ele que nos vê passar e não nós que o sentimos correr. E é desta relativa inércia, ou, pelo menos, do sossego majestoso das coisas que me envolve e aos poucos me possui, que eu talvez consiga perscrutar melhor a mobilidade distante para onde tornarei.»
Fernando Namora

Por isso busco a paz, por isso busco o sossego. Por isso sei que o desacelerar do meu mundo me sufoca. Sei que caminho mais célere, sempre em busca de mais, de menos, ou fico aqui ou...


 

For Jane

Estendo-me numa cama sozinho num quarto de estrada. Fiquei aqui a última noite também. A smith-corona martelando toda a noite. 5000 mil toques para uma qualquer revista feminina. Queriam um texto sobre o verão! Seja lá isso o que for nesta altura do ano. No meu rádio decidi ouvir Hi-Fi FM. Lembrei-me das noites da Barraca. Escrevi o texto de sopetão. Afinal estava interessado em outros exotismos. Outros pensamentos. Tinhas partido havia muito tempo. Senti a seda das tuas mãos quando te despediste de mim. Levantei-me e abri a janela. Deviam ser umas quatro da manhã. Onde andarias? Estarias com outro homem com certeza. Não tinha ilusões. Será que ainda pensavas em mim? Saberia ele que vieras a este quarto pedir-me dinheiro? Sentei-me novamente à máquina de escrever. Tinha que seguir escrevendo. Lá em baixo havia uma discoteca. Ainda estava aberta. Pelo menos ouvia ruído. Estava cansado de beber cerveja. Saí e fui procurar algo mais intoxicante. Já estavam poucos clientes àquelas horas. Numa mesa vi-te, penso que serias tu. Não me deixaram falar-te. Acho que foi um empregado que me agarrou. Saí, atirei com o meu copo contra a porta do bar. Acho eu que tinha um copo na mão. Voltei ao quarto de estrada onde perdera a razão. Acordei às 10 da manhã. Estava encharcado. Dormira na rua, nas escadas de acesso ao quarto e tinha chovido. Boa forma de começar Agosto.

225 days under grass
and you know more than I.

they have long taken your blood,
your are a dry stick in a basket.

is this how it works?

in this room
the hours of love
still make shadows.

when you left
you took almost
everything.

I kneel in the nights
before tigers
that will not let me be.

what you were
will not happen again.

the tigers have found me
and I do not care.
Charles Bukowski


 

UM HOMEM QUE ESCREVE

Um homem tinha escrito cabeça na testa e mão em cada mão, e pé em cada pé.
O pai dele disse, pára pára pára, pois a redundância é como ter dois filhos, o que é dois filhos a mais, como logo à partida que é já um filho a mais.

O homem disse, posso escrever pai no pai?
Sim, disse o pai, porque um pai está cansado de suportar tudo sozinho.

A mãe disse, vou-me embora se todas essas pessoas vierem jantar.
Mas o homem escreveu jantar em todo o jantar.

Quando o jantar acabou o pai disse ao filho, poderás escrever arroto no meu arroto?

O homem disse, hei-de escrever Deus abençoe todos em Deus.


Russel Edson (1935)
O Túnel
(Tradução de José Alberto Oliveira)

Quarta-feira, Julho 02, 2003


 

Canção do Engate

Ouço os blues a rolarem por debaixo de meus pensamentos. Quero saber porque estou fora da lei, aqui onde construo os sons dos meus sentidos.
Vou vindo, cansado comigo. Os edifícios jazem aqui perto de mim.
Eu bebi a minha coragem num lago lá longe na Finlândia. Quando ela se põe toda friorenta. Quando ela mostra os sentidos que perdi. A minha flor perfumada. Que não consigo ter em mim. Que não te tenho perto de mim. Que não vais ficar aqui. Aqui onde tudo arde. Ouço os teus passos lá longe. Onde? Aqui não. Esta distância entre mim e ti. E reservo um pouco de ti a cada vez que tu me tocas e espero-te aqui, ali, num canto qualquer. Que tenho sempre visto que andas rondando o meu pensamento. O lago que me sai do pensamento em céus azuis espelhando. Tu estás livre. Eu aqui prisioneiro.
É o momento de partir? De me dar. O que buscas? Companhia. Eu que busco? Quem quiser.

a António Variações, obrigado.


 

Comentários

Não sei se vos tem ocorrido o mesmo: O sistema de comentários da Enetation tem falhado, devido provavelmente a uma sobrecarga qualquer nos seus servidores. Assim decidi tornar o sistema reduntante, ou seja, tenho dois sistemas a funcionar ao mesmo tempo, de empresas diferentes, tendo colocado um da Haloscan. A ver se não falham os dois ao mesmo tempo.


 

Regresso, pé ante pé, regresso!

Depois de um dia atribulado, onde não disse mais nada, eis-me de volta às lides. Gosto do tracejado. Gosto Ponto. Ponto tracejado.
Ouço um ritmo lento.

Velha Infância
by Arnaldo Antunes, Marisa Monte, Carlinhos Brown, Pedro Baby E Davi Moraes

Você é assim
Um sonho pra mim
E quando eu não te vejo

Eu penso em você
Desde o amanhecer
Até quando eu me deito

Eu gosto de você
E gosto de ficar com você
Meu riso é tão feliz contigo
O meu melhor amigo é o meu amor

E a gente canta
E a gente dança
E a gente não se cansa

De ser criança
Da gente brincar
Da nossa velha infância

Seus olhos meu clarão
Me guiam dentro da escuridão
Seus pés me abrem o caminho
Eu sigo e nunca me sinto só

Você é assim
Um sonho pra mim
Quero te encher de beijos

Eu penso em você
Desde o amanhecer
Até quando eu me deito

Eu gosto de você
E gosto de ficar com você
Meu riso é tão feliz contigo
O meu melhor amigo é o meu amor

E a gente canta
E a gente dança
E a gente não se cansa

De ser criança
Da gente brincar
Da nossa velha infância.


Ele olhava-a do morro. Ele olhava-a lá do alto. Um avião passava. Um sol caía a pique. A fonte da praça jorrava lentamente. Procurou a felicidade. Revisitava as 15 por 10. Olhava o morro quando passava. O seu vestido ondulava no vento.

O caminho desce lentamente. O batuque soa ao longe. Devagar corre um garoto. Parece tudo deserto. Só aquele sol a pique. Só aquele rasto de avião no céu. Um verde junto à fonte jorrante. Um cabelo negro solto. Os passos pequenos céleres caminhando. Ela é livre. Levanta-se uma ventania. As 15 por 10 levantam voo. A janela bate. O céu está limpo. Surge a primeira sombra no desenho da praça.

Sairei daqui. Irei lá à cidade e comprarei uma gravata. Procurarei trabalho onde me queiram. Onde o céu não seja azul e onde as fontes tenham secado. Voltarei para casar contigo. Voltarei para te segurar na mão e te levar. Deixarei aqui as 15 por 10 e levarei apenas comigo a imagem do teu vestidinho ondulante. Quando anoitecer, seremos felizes.

Terça-feira, Julho 01, 2003


 

O meu cavalo azul, com os devidos créditos ao génio de Pablo Picasso.

Uma vez perguntaram-me se o que escrevia aqui tinha algum sentido. Não, não tem...Não obedece a nenhuma lógica, não segue nenhum padrão, não quer dizer nada sobre o/os autor/es. É apenas um amontoado. Será uma expressão dos seus caóticos movimentos mentais? Será um exercício de masturbação? É tudo aquilo que o leitor quiser que seja. Aqui publica-se isto e aquilo e aqueloutro. Mas não pretende ser mais que isso. Uns acham que vou opinar aqui sobre os grandes assuntos de interesse para a humanidade, outros nem por isso. Mas não me importo. Aqui apenas fica o amontoado destas coisas. Um dia se tiver um editor, ele editará... Afinal não é para isso que eles servem? Ou será apenas para ganhar dinheiro à nossa custa? Ah! Podia também falar de discussões pseudo-intelectuais. Ou então de metafísica. Podia também mandar recadinhos e contar-vos como são as minhas viagens ao norte. Ou ao sul. Depende de para onde estiver apontado o meu carro quando saio. Amanhã vou comprar uma bicicleta. E uma liga para os dedos. Estou com uma tendinite. Mas disperso-me! Nada de novo. Aqui também me disperso. Magnésio por favor.

Estive a organizar os livros que estou lendo. São tantos e andam tão perdidos aqui por casa. De vez em quando dou por um livro perdido entre estantes e verifico que não o acabei de ler. E retomo-o. Por isso decidi correr a casa e empilhei-os todos aqui na minha frente. De baixo para cima:

Ezra Pound – Antologia poética
Milan Kundera – A imortalidade
Orlando Neves – Dicionário da Origem das Palavras (de onde tirei a história do amoníaco)
Mário de Sá-Carneiro - Obra Poética Completa
Jack Kerouac –- Pela estrada fora.
Jean-Claude Carrière – Tertúlia de Mentirosos
William Burroughs – Festim Nu
Fernando Namora – Estamos no Vento (relendo, depois de uma conversa com uma amiga)
Revista internacional de poesia, Dimensão, n.º23 – ( um dos que eu mais gosto, desta extinta revista. O n.º 23 mostra visuais lindos e reporta aos anos de 1993/94)
Revista Ler, n.º58 com uma entrevista com a Paula Rego. (esta não devia estar aqui, não é uma leitura, mas gostei tanto da entrevista com a Paula Rego, que a considerei.)

Amoníaco

Gás incolor, de cheiro vivo e sabor acre, formado por um átomo de azoto e três de hidrogénio (NH3). Chama-se «agasilide» à planta donde se extrai ou sal ou a goma amoníaca.
Como muitas vezes sucede, a própria palavra contém, escondido, o indício da sua origem. É o caso: as primeiras quatro letras – Ámon. Ámon foi o principal deus da mitologia egípcia que os gregos identificaram com Zeus e os romanos com Jupiter. Inicialmente, Ámon era um insignificante deus local, talvez em Tebas. O seu clero, porém, elevou-o aos píncaros e tornou-se deus oficial da política e dos faraós. Agregando o nome Re ou Rá ( o antigo deus Sol) passou a ser cultuado como Ámon-Rá. Havia na Líbia uma templo que lhe era dedicado. Junto dele florescia a tal planta donde se extraiu a goma que foi chamada ammoniakon, à letra, «vinda do país de Ámon».
O gás, propriamente dito, só foi descoberto em 1612, por Kunckel e a sua composição exacta estabelecida em 1785 por Berthollet
.
Orlando Neves – Dicionário da Origem das Palavras

A quantidade de informação inútil que aqui coloco. Esta deve ser útil apenas a alguns curiosos, muito raros, e que porventura passarão por aqui acidentalmente. Eventualmente alguns químicos. Mas com andava para colocar isto online há já algum tempo por causa da egiptologia...foi hoje.

Estou a ficar sem tinta na minha máquina de escrever. As fitas secam rapidamente quando as deixo expostas ao ar. Alguém sabe onde posso comprar fitas para máquinas de escrever? Nomeadamente para os modelos Rover 7000 e para uma Smith-Corona?

Voltando à revista Dimensão. Que foi a coisa mais interessante que toquei hoje.

Não sei como vos mostrar aqui alguns dos visuais. Estou demasiado preguiçoso para fazer uns scanners, para além de incorrer em problemas de copyright. Queria apenas lamentar o seu desaparecimento no número 30 e queria lembrar que quem conseguiu alguns números que os deve estimar. A revista é um marco do que melhor se fez sobre poesia. Se não os quiserem guardar.. enviem-mos, eu fico com eles todos.

Assim se faz um doido. Assim se faz um castelo. Assim se escreve e descreve a insensatez de uma mente. Agora vão-me acusar de que este longo post não é mais do que uma ejaculação precoce e umbiguista. É, é verdade que é! Agora acusem-me e .. pronto.. tem todo o direito de o fazer. Eu ia dizer que vos cortava o pio, mas só a alguns, mais provocantes. Mas são desses que gosto. Aliás quem não gosta dos seu leitores? Não eu com certeza. E as provocações são mais para a minha mente que para a vossa. Percebem agora a minha dor? Não ainda não a expliquei em condições. Acho que a minha dor ficará perdida sempre entre a minha mente e os meus dedos. Não conseguirei. Nem vocês. Nem a porra do meu editor.. se um dia tiver um.

Vou dormir. São agora seis da manhã. Logo tenho uma reunião. Antes colocarei isto online. Malditos homens das tintas Caran d’Ache.

Li uma história sobre a morte que vai buscar a mulher de um homem belo. A história contada pela própria morte que se apaixona pelo homem belo, e que assim tem que lhe levar a mulher. Talvez até com um requinte de malvadez. De ciúme talvez. Porque a morte levando a mulher, realiza a sua vingança, mas não satisfaz o seu desejo. E o homem belo acordará e a morte sabe como acordará, os olhos de seu belo homem estarão atónitos e a morte sabe. E em seu ciúme sorrirá. Com a mulher nos seu braços. Sem poder estender as mãos.

Entramos na idade da Internet.
Próxima etapa: falar directamente com Deus. O que nós já fazemos desde que falamos.

Eduardo Lourenço.

Não se pode dizer ao leitor que se está a tentar atingir o leitor. É um contra-senso. Se ele se aperceber, vamos perder o leitor. Vai ficar ofendido e não vai querer voltar aqui. Não vai comprar mais o jornal, ou o próximo livro, ou aceder ao site. Não vai passar palavra sobre o que leu, não vai sequer lembrar-se de qualquer outra mensagem que tivéssemos tentado transmitir. A verdade é que a tentativa de conquistar o leitor, corrompe a escrita e dessa forma vai fazer com que toda essa tentativa de comunicação seja inútil, um exercício fraco de redacção escolar, nada mais.

[update]
Hoje abateu-se sobre mim um manto negro, um manto de tristeza. Não de morte, mas de profundo pesar pela condição humana. Se na generalidade somos bons, no particular somos mesquinhos e sonsos. Poucos somos os que vivemos e muitos os que procuramos evitar que nos roubem aquilo que achamos ser a nossa vida. Assim, hoje não direi mais nada.


 

Loucuras...

é fácil amar o louco mas bem mais dificil é sê-lo.

Como eu não possuo

Olho em volta de mim. Todos possuem –

Um afecto, um sorriso ou um abraço.
Só para mim as ânsias se diluem
E não possuo mesmo quando enlaço.

Roça por mim, em longe, a teoria
Dos espasmos golfados ruivamente;
São êxtases da cor que eu fremiria,
Mas a minh’alma pára e não os sente!

Quero sentir. Não sei... perco-me todo...
Não posso afeiçoar-me nem ser eu:
Falta-me egoísmo para ascender ao céu,
Falta-me unção pra me afundar no lodo.

Não sou amigo de ninguém. Pra o ser
- Forçoso me era antes possuir
Quem eu estimasse – ou homem ou mulher,
E eu não logro nunca possuir!...

Castrado de alma e sem saber fixar-me,
Tarde a tarde na minha dor me afundo...
Serei um emigrado de outro mundo
Que nem na minha dor posso encontrar-me?...

*

Como eu desejo a que ali vai na rua,
Tão ágil, tão agreste, tão de amor...
Como eu quisera emaranhá-la nua,
Bebê-la em espasmos d’harmonia e cor!...

Desejo errado... Se a tivera um dia,
Toda sem véus, a carne estilizada
Sob o meu corpo arfando transbordada,
Nem mesmo assim – ó ânsia! – eu a teria...

Eu vibraria só agonizante
Sobre o seu corpo de êxtases dourados,
Se fosse aqueles seios transtornados,
Se fosse aquele sexo aglutinante...

De embate ao meu amor todo me ruo,
E vejo-me em destroço até vencendo:
É que eu teria só, sentindo e sendo
Aquilo que estrebucho e não possuo.

Paris – Maio de 1913
Mário de Sá-Carneiro

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