6H Agridoce - netcast de tecnologia, ciência e internet
Emissão em mp3 sobre Linux, open source, novas tecnologias, exploração espacial e os limites da ciência.
Domingo, Agosto 31, 2003
sobre a escrita
A escrita metódica distrai-me da presente condição dos homens. A certeza de que tudo está escrito anula-nos ou fantasmagoriza-nos. Conheço distritos em que os jovens se ajoelham diante dos livros e beijam selvaticamente as páginas, mas não sabem decifrar uma só letra.
Jorge Luis Borges in
Ficções
Toalha
Ele combatia há dois minutos. Faltavam ainda 50 segundos para o fim do primeiro round. Tinha sido surpreendido no primeiro
jab de esquerda do Rico. O gajo era bom, mas não tão bom assim que conseguisse mandar o meu homem ao chão no primeiro round. Quando tentou meter o
uppercut já o meu homem tinha recuperado daquele
jab. Foi mau. Os júri deu-lhe pontos. Este round estava perdido. Mas no primeiro round não cairia. Só tinha que se aguentar mais 25 segundos. Faltava pouco. Andou ali, mais um pouco a dançar o Rico. Este tentou meter mais uns
jabs, mas o meu homem agarrou-o.
O gongo soou. Fim do primeiro round.
Agora começara o meu trabalho. Dois minutos para por o meu homem capaz de matar “o touro”. Subi para o ring e tirei-lhe a protecção dos dentes. Limpei-lhe a cara e vi o estado daquela vista. Horrível. Aquele Rico, quando acerta, é demolidor. O meu homem dizia “
Ok, Ok, I’m Ok”.
Apliquei-lhe vaselina nas sobrancelhas e na ferida para as luvas do Rico escorregarem melhor e não o aleijarem com a fricção. Depois segurei-lhe as luvas e disse-lhe “
hit him, champ”.
Soou o gongo. O Rico entrou com toda a força. O meu homem reagiu bem, mas fugiu para as cordas na investida seguinte. O Rico percebeu que aquele olho não ia aguentar e começou a massacrar o olho esquerdo com
jabs. Alguns entravam e eram o suficiente para abrir a ferida. A vaselina não duraria mais que dois ou três socos bem metidos. Ainda por cima o meu homem estava a denunciar a dor, levantando muito a guarda para proteger o olho.
“No boxe, temos que parecer fortes quando estamos fracos e parecer fracos quando estamos fortes.”
Passaram 30 segundos. Não valia a pena continuar. Peguei na toalha, que tinha ensanguentada de limpar aquele olho, e atirei-a para o ring.
Soou o gongo. Acabou tudo. Rico revalidava o título pela terceira vez consecutiva. O meu homem ia dali directamente para o hospital.
A toalha ficou no ring, mesmo depois da sala vazia ainda lá estava no chão, a demonstrar o fracasso do meu homem, a demonstrar o meu fracasso. Eram talvez umas 3 da manhã quando voltei ao ring. Vi-a ali estendida como um corpo dobrado ao peso dos socos. O meu corpo estendido. Tinha assinado o fim da minha carreira como treinador de boxe. Ninguém quereria mais ser treinado por mim. Teria que me contentar a ensinar uns putos maltrapilhos num qualquer ginásio de subúrbio mal cheiroso. Olhei para a toalha uma última vez antes de lhe pegar. Parecia um bebé em posição fetal.
Sábado, Agosto 30, 2003
Mudanças
Preparo novos caminhos, novas profissões, novos ensejos, novas decisões. Se alguém tiver um emprego/projecto que me queira oferecer, estou disponível para ouvir as propostas. Estou a precisar de um desafio novo. Algo interessante, com dead lines apertados, que faça andar sempre em cima do risco, que não me mantenha parado. Pode ser a escrever (um livro de preferência, ia ser um best seller), fotografar, pagaiar, perseguir manadas de elefantes. Bem.. lembrei-me agora, canoagem não pode ser, a menos que me forneçam a canoa e um espaço para a guardar, que a minha casa é pequena e não iria caber cá em casa. Mas pode ser qualquer coisa que eu goste muito. Cujas experiências sejam suficientemente boas para poderem ser contadas. Que nunca chegue a casa e à pergunta do meu diário “como foi o teu dia?” eu tenha que responder “passou-se, foi bom... trabalhei apenas”. Quero algo que precise de energia e dinamismo, que me permita viajar. Sim gostaria de poder viajar em trabalho. Tem esse emprego? Andava à procura de uma pessoa para este perfil há muito tempo e nunca tinha encontrado? Contacte-me. Eu ouvirei a sua proposta e depois falaremos. Para me aliciar, pode enviar um email explicativo da sua ideia sobre a minha colaboração para
sixhat@msn.com
Ainda sobre o andanças
Estou de volta, agora mais calmo, já com os djembés lá ao longe a rufar baixinho. Agora que passaram 24h sobre a chegada que me permitiram recompor as forças, dormir 12h seguidas, fazer a barba (mentira, não fiz) e lavar a roupa da lama acumulada (sim isto fiz e a lama não era pouca, asseguro-vos). Mas estou saudoso nesta tarde de sábado, pensando no bom tempo que estará lá, nos danças que ficaram por dançar e no espírito que só ali, naquele retiro, se pode encontrar. Está quase de partida o
andanças, mas começa-se já a contabilizar o tempo que falta para o próximo ano. Até lá fica a memória e a vontade de dançar.
Perfil
Pediram o meu perfil para uma entrevista de emprego. O que define o melhor uma pessoa? O seu CV ou o seu blog? Ups.. Espero que nenhum entrevistador leia este site. Acho que não enviei o endereço. Acho. Logo se verá...
Nómadas
Vi um dois três quatro mais uns quantos. Vi o Quino e a Mafalda a contarem chineses. Vi o procissões de fieis. Vi estafetas viajantes. Vi olhares despertantes. Vi os mares de castanho toldados. Vi os pés descalços no frio. Vi as tendas de chã repletas de odores. Ouvi adufes e tambores, ouvi chilreios e grilos. Ouvi concertinas e sanfonas. Ouvi a chuva. E o vento e o restolhar dos carvalhos sobre a minha cabeça. E ouvi-os a conversar, a uivar, a cantar ao som de pandeiretas e
djembés. Desafinavam, bastante, mas não era importante. Estavam lá, como estiveram noutro lado, como outra vez partiram e depois chegaram. Como tu, que partes a cada instante. Que sempre viajas para parte incerta, certa que vais em voltar. Que sempre regressas a casa no fim de um verão. Como eles que viajam ao sabor das palavras que o vento lhes traz. Sabendo sempre qual o ponto de partida. Vi-te lá como sabia que te iria ver, preparando nova viagem. Novos caminhos para calcorrear. Porque o vento traz novas em cada instante, mais que o frio e mais que a chuva. Apenas é preciso saber a linguagem que ele fala. Para o ouvir, para o reconhecer, ver e saborear. Estender a língua pela manhã. Apanhar uma gota de orvalho caída de um céu imenso, cinzento em farripas. E escutar. Estavas de partida para nova viagem. Estás sempre de partida para nova viagem. Partindo para nova viagem. O vento disse-me. O vento ajudou-me a encontra-te e embarcar também. Ouvimos o silêncio. O restolhar. Ouvimos chilreios e grilos. Ouvimos concertinas e sanfonas. Ouvimos o vento. Partimos. Apitou. Uma lanterna foi agitada.
“Vai partir”, ouviu-se ao longe na gare.
“Corre, vamos apanhá-lo”
Sexta-feira, Agosto 29, 2003
Voltei
Regressei e os meus dedos parecem perros. Ainda se encontram habituados à faca de mato e ao esgravatar do chão, para colocar espias que saltam durante a noite. Demoro algum tempo a percorrer o teclado novamente. Tacteio cada tecla suavemente, em busca da sua identidade. Do elo que me une à escrita. Demoro a escrever a primeira frase. Há um receio, depois uma leve hesitação. Por fim começo a aplicar toques firmes mas delicados nas teclas da minha Smith-Corona. Sinto um frenesim, uma excitação crescente. Regressei. Não desaprendi. Pelo menos não sinto os meus dedos presos. É como se nunca tivesse passado para a grafite e o papel. A máquina segue veloz, conduzida pelos meus dedos e parece vibrar a cada toque. Estou de volta ao meu escritório. Agora que escrevi as habituais 5 páginas de inutilidades e rasguei outras tantas de poemas inacabados, sinto-me de volta a casa. De regresso. Estou aqui. Sinto-me aqui. Até nova partida este é o meu mundo, tacteando levemente a minha Smith-Corona.
Domingo, Agosto 24, 2003
Perninhas de frango com Roquefort
Receita de queijo obtida daqui
Ingredientes:
Para 6 pessoas:
6 pernas de frango com coxa
70 gr de manteiga
1 colher de sopa de óleo de girassol
1 cebolinha
1 dl de vinho branco
2 dl natas
60 gr de queijo Roquefort
Endívias
Preparação:
Leve ao lume um tacho com 50 gr de manteiga e óleo. Junte as pernas de frango e salteie-as cerca de 15 minutos. Tempere-as com sal e pimenta.
Acrescente a cebolinha picada e regue com o vinho. Cozinhe o frango cerca de 45 minutos. Leve ao lume um tachinho com as natas e o Roquefort e cozinhe até que o queijo se derreta e se incorpore completamente nas natas. Corte o caule branco às endívias, lave-as em água corrente, corte-as em fatias finas e coza-as em vapor. Deite a restante manteiga num tacho, junte as endívias e estufe-as cerca de 5 minutos. Junte as endívias ao molho de natas e ao Roquefort. Regue as pernas de frango com o molho e sirva de seguida.
Notas:
Em vez das endívias, pode utilizar espinafres salteados.
Isto para dizer apenas que durante uns dias não estarei por cá, o que não quer dizer que tenha votado o blog ao
esquecimento. Apenas que estarei no
"andanças" e como tal, sem internet. Até...
O muro
De cada lado do muro caminhavam em sintonia. Caminhavam para se verem do alto do muro naquele instante em que se viravam para novo percurso. Nesse instante viam-se ao longe, do outro lado da fronteira. Sem se cumprimentarem, cumprimentavam-se. O olhar entreolhava-se. Que pensaria ele? Ele? Amigo, inimigo, do outro lado da fronteira. Um dia ele trazia a máscara destapada. Surpresa, não era ele. Era ela. A inimiga amiga era uma ela. Uma ela? Como poderia ser uma ela? Será que ela olhava para ele como o inimigo amigo? Afinal apetecei-lhe acenar um dia quando se fosse virar na ronda. Não podia. Se fosse apanhado era certamente acusado de traição.
Um dia sentaram-se no banco de jardim e conversaram. Um de cada lado do banco quando se encontraram, depois do mesmo lado. Dos dois lados do banco. Um e outro. Partiram juntos.
Ele decidiu um dia colocar uma fita branca no cano da espingarda. Disse ao superior que se tratava de uma lembrança de um sobrinho. Ela percebeu e passado algum tempo também tinha uma fita na arma, desta vez amarela. Ao fim de algum tempo quando se voltavam um para o outro sorriam já e demoravam algum tempo a fazer o volver. Ele via-a e ela a ele.
Um dia estavam em casa e ouviram que o muro caia. Foram para a rua. Festejaram com os amigos. Voltaram a encontrar o passado. Depois as rondas acabaram e não mais se cruzaram no volver da patrulha. Viviam juntos agora e pensavam em casar e ter dois filhos.
Lambreta
Partimos em corridas incessantes. Onde tudo o resto era irrelevante, deixando bilhetinhos segredados em pedras seculares. Onde partíamos a cada instante e em cada instante chegávamos para um novo partir. Víamos tudo célere. Víamos tudo numa reprise de emoções e aflorávamos a velocidade de rotação da terra para depois partir em direcção às estrelas. Traçávamos tangentes a Marte e a Vénus para bebermos um cálice de puro hidramel de braços enleados. Andávamos de corcel pintado de todas as cores, sobre paisagens escuras de estranhos odores. Fomos para longe e nos perdemos, regressamos durante anos perdidos. Fazíamos amor com a estrada, que sempre nos embalou em doces ternuras. Sentíamos os deuses irados nos rostos. Víamos peões de xadrez sacrificados. Olhávamos os jogo do outro lado do espelho e fugíamos depois para retiros sonhados. Deitados na relva macia, contemplávamos. Contemplávamos. Foi assim o nosso verão.
Corridas
Ele corria, vencia, desfazia-se em detalhes de prazer. Caiu um dia e ficou ali estático. Sem saber para onde ir. O mundo estava escuro, seria que ficava cego? Estava mesmo a ficar cego. Cego! Como era possível ficar cego assim? Não acreditava. Cego aos 25 anos de idade com uma compleição física invejável e um cuidado permanente com o corpo. Como podia ficar cego?
Ele corria, vencia, desfazia-se em prazeres e lambidelas. Corria e eu aprendi a andar ao lado dele. Aprendi a senti-lo roçar as minhas pernas quando me procurava guiar e desviar de algum obstáculo. Aprendi que fazia pequenas corridas e parava logo para me vir buscar quando estávamos na praia. Como ele adorava a praia. Sentia-o feliz. E eu continuava a caminhar na direcção que ele me indicava, durante alguns passos. Sabia que ele me guiava bem. Que me vinha buscar. Depois levava-me de regresso a casa, ao longo da marginal, e frente para o sol de fim de tarde, sempre a meu lado, sempre atento, sempre disponível.
Sexta-feira, Agosto 22, 2003
Caiu ao chão
Dona C. todos os dias passava por aquela rua e todas as manhãs no caminho do mercado, tinha que encontrar o camião das descargas estacionado em frente à sua varandinha de primeiro andar. Não adiantava resmungar, visto as descargas serem autorizadas. Mas verdade, verdadinha, é que aquele camião todas as manhãs ali estacionado já lhe começava retirar o sossego. Um dia enquanto passava vociferou tantos insultos que fariam corar um surdo.
Depois de regressar das compras mais uma vez passou pela carrinha a resmungar. Um dos rapazes novos, que fazia a descarga, ainda lhe respondeu indignado, que estava apenas a fazer o seu trabalho. Outro rapidamente o segurou.
Deixa lá, é todos os dias assim.
Ela continuou a caminhar. Chegou-se à porta. Nesse momento um saco de laranjas, que o jovem transportava em cima do camião, desmanchou-se e as laranjas estatelaram-se pela estrada. O funeral realizou-se dois dias depois. O camião não mais estacionou daquele lado da rua.
Quinta-feira, Agosto 21, 2003
Regresso
Já não te via há muito tempo. Partiste com a tua mãe para longe e nunca voltaste. Agora que te fizeste mulher, telefonaste-me para marcar um encontro. Para conversar um pouco. O que poderás ter para me dizer? Será que ainda te reconhecerei? Quando partiste tinhas não mais de dois palmos.
Sabes, hoje não sei porque te deixei partir. Inconsciência da juventude. A minha vida parou junto das árvores deste jardim. Ironicamente hoje são estas mesmas árvores que observam o teu regresso.
Quanto tempo ficarás? Sei que não mais que pouco. Sei que será assim. Virás apenas ver este velho caquéctico por uma questão de curiosidade mórbida e partirás indiferente. Estranharás a minha presença e rejeitar-me-ás. Esta é e minha sina, com estas raízes podres da minha vida agarradas a este jardim.
Ela caminhou a passos decididos, aproximou-se dele, sem falar sentou-se no muro ao seu lado. Beijou-o ternamente na face e destapou um bebé que transportava ao colo.
Este é o teu avô Xavier, é dele que tens o teu nome.
Quarta-feira, Agosto 20, 2003
Olhares
Ouvi o chamamento. Com ele parti para procurar o mundo, como
Hemingway, mas parti para me procurar. Em todos os cantos procurei. Em todos os continentes, sempre com o pretexto de querer mais, de saber mais, de viver mais. E em cada instante, em cada lugar, procurei. E sempre tive a sensação de ser encontrado. Eu, que pensava passar para sempre despercebido. Sem tocar em ninguém. Sem que alguma vez, alma alguma sentisse o efeito do meu temporal. Afinal, o que de comum houve em todos estes lugares foi que, por mais que me escondesse, por mais que vos evitasse, sempre houve alguém capaz de me olhar no fundo da alma.
Alternativa:
Luzes
Vejo ali as luzes que me fazem ofegar, que me fazem sentir perdido. Foi um dia assim. Estava parado debaixo de um carvalho. Uns elementos da junta de freguesia lá do sítio começaram a arranjar o terreiro. Estariam talvez 40ºC. Insuportável. Depois começaram a juntar-se pessoas e mais pessoas e mais pessoas. O meu sossego acabou. Como estava demasiado calor não me movi de debaixo do carvalho. Deixei-me ficar a apreciar o movimento. Que se passaria ali? Mais tarde comecei a ouvir um ruído metálico cadenciado. Era com se alguém estivesse a bater no chão com uma vara de ferro. Era um procissão que se aproximava. E o ruído era produzido pelos “cajados”.
Deixei-me ficar quieto, muito embora tenha tirado a máquina fotográfica. Não fosse o diabo tecê-las. Quantas fotos perdi por ficar a dormir.
Caminhavam tão certos. Em que pensariam? Seriam arautos de alguma desgraça? Ou de novas inimagináveis. Na frente, um rapazinho de rosto claro, olhava para a minha objectiva. Não o vi (falta de profissionalismo). Disparei o obturador e repentinamente, quando o espelho voltava à posição de descanso, senti que me empurravam do banco de jardim onde estava sentado. Cai no chão. Ao meu lado, no banco, uma coluna de som, que tinham instalado enquanto dormia de tarde, estatelava-se. Por uma fracção de segundo ... por uma fracção de segundo. O miúdo que não vira, sorria, puxava a batina, que arrastava no chão, para cima e continuava a sua caminhada.
Terça-feira, Agosto 19, 2003
Desisti
Vou ficar aqui. Não quero descobrir ninguém mais. Não quero saber onde encontrar os caminhos mais naturais. Não quero ter forças. Não as quero recuperar. Vou deixar-me ao abandono nesse mar. Ficar apenas a vogar ao sabor das ondas olhando paro o céu. Por isso os silêncios de ontem foram tão deliciosos. Por isso não tinha que falar. Porque também as palavras desapareceram da minha mente. Porque apenas o aceitar do meu silêncio era suficiente e era também o meu limite. Por isso contemplei as estrelas que não brilham e por elas vi os cavalos de corrida. Por tudo o que não sou e por tudo o que sou, vejo as minhas mãos leves e tristes e brancas como cal, esquálidas. Não consigo vislumbrar mais que uma pequena fracção do fim. De um horizonte que saiu da linha que une os dois lados do mar.
Segunda-feira, Agosto 18, 2003
Eu enrolei o vento em torno dos teus ombros
Caminhei centenas de quilómetros. Fiz mezinhas para as bolhas dos meus pés. Subi montes e desci vales sem fim. Andei perdido durante dois anos em busca de um prazer instantâneo. Contraí dívidas e fomentei intrigas. Fugi de polícias e de motoqueiros. Andei descalço sobre alcatrão quente. Comi feijão de latas e passei fome. Nesse tempo era magro. Pesava pouco mais de 45 kg. As pessoas fugiam de mim quando entrava numa povoação. Estava quase sem vida. Andava nu pelo deserto havia 3 dias. Tinha-me despido porque já não suportava os piolhos no meu corpo. Andava à deriva e estava gelado. Até que um dia senti uma brisa. Olhavas-me do alto de um morro e sorrias. Olhaste-me frio e inerte, mas eu não senti nada. Apenas essa brisa a percorrer-me as costas. Esperava-a. Subiu lentamente até aos ombros. Vi a areia a ser movida, em frente ao meu nariz, pela tua força. Depois fechei os olhos e deixei-me levar nos braços do vento que me enleava. Senti-me subir rapidamente como no apex de um furacão. Imaginei como se sentira
Dorothty e estendi a mão para fora da vertigem. Os nossos dedos tocaram-se numa das voltas. Olhavas para mim controlando a minha ascensão a ti. Deixei-me abandonar. Afinal procurava-te fazia tanto tempo. Adormeci no vento, despido de medos. Feliz.
Domingo, Agosto 17, 2003
Uma boa ideia
Londres instituiu portagens para limitar o acesso dos automóveis ao centro da cidade. Passados seis meses, os primeiros resultados começam a ser conhecidos: Diminuição de 32% dos engarrafamentos e redução de 16% dos veículos dentro do perímetro taxado. Entretanto, com as receitas, a empresa de transportes de Londres já colocou mais 300 autocarros a circular, diminuindo em 23% o tempo de espera dos utentes.
Público
News24
Patcha
Patcha olha distraidamente a rua. Patcha bebe álcool puro. Patcha caminha pela rua com as botas rotas, dando pontapés nas pedra soltas da calçada. Patcha é jovem. Não tem sonhos. Patcha vê as marcas do tempo nos rostos dos vagabundos. Patcha está sentado de mão estendida. Patcha não tem passaporte. Patcha roubou uma faca de cozinha da cantina da sopa dos pobres. Patcha vê Lisboa engolir o Tejo. Vê-se lá dentro nadando em direcção a casa. Patcha tem frio. Deixa de ter rapidamente. Patcha não sente. Patcha morreu.
Azias
Vi-te lá a um canto. Entrelaçavas a tua língua na dele. Não me vias, via-te eu. Mesclavam-se numa dança provocante. Pareciam loucos. Senti-me mal. Via-te. Espiava-te. Senti perderes-te. Era impossível saberes que eu estava ali. Não podias saber. Mas provocavas ainda mais. Roçavas o teu corpo no corpo musculoso dele. Nunca o farias comigo. Sei que nunca o farias. Voltei o olhar.
Pedi mais uma bebida ao empregado. Tentei não olhar. Estive talvez dois minutos assim. Voltei-me. Tinhas desaparecido com ele. Os vossos amigos ainda ali estavam. A realidade enfureceu-me. Sabia o que ias fazer. Fiquei furioso. Saí. Olhei a rua a ver se vos encontrava. Vi o teu carro arrancar ao longe. Tinhas-lhe dado a chave para ele conduzir. Tu que eras tão ciosa do teu carro. Que nunca deixavas ninguém conduzir.
Voltei-me para uma parede. Segurei-me contra ela com as duas mãos. As forças começaram a faltar-me. Vi a rua a rodopiar e de repente um esguicho de vómito irrompeu contra os meus sapatos.
Sábado, Agosto 16, 2003
Esher
Já aqui tinha referido uma vez este senhor. Agora, à conta de uma conversa que tive recentemente, volto à carga. Divulgação nunca é de menos.
M.C. Escher
Para rever ou conhecer
Cinema Ávila
Av. Duque de Ávila, 92 A
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geral.medeia@medeiafilmes.com
Preço único -
2 EUR
De 22 a 25 de Agosto
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Gerry" de Gus Van Sant
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Spider" de David Cronenberg
De 29 a 30 de Agosto
"
Dez" de Abbas Kiarostami
De 8 a 11 de Setembro
"
Donnie Darko" de Richard Kelly
+
BlackOut
- Olá, então já sabe da última novidade. Parece que o Canada, nosso amigo de sempre, embora o tratemos como lixo, agora decidiu vingar-se de nós e rebentou com a rede eléctrica. São muito doidos estes nossos vizinhos.
- Afinal a que horas parte o nosso avião? Estamos aqui presos... há tanto tempo. E ainda por cima nem nos arranjam um hotel decente.
- Estes canadianos. Sempre a tentar arranjar-nos problemas.
- Ó amigo, nós estamos em Ponta Delgada. Isto aqui é Portugal. Um aliado.
- É como se fossem o Canada. Estão a tentar complicar-nos a vida. Eu acho que devíamos rebentar tudo à bomba. Se não nos arranjam voo, porque não nos arranjam alojamento? Malditos canadianos. Tinham logo agora que provocar um balckout. Eu acho que eles devem ser terroristas. Talvez da Al Queda?
- Ó amigo, acalme-se lá. Tome dois xanax e vá dormir ali naquele banquinho.
Curiosidades fúteis
Se formos ao Google e fizermos uma pesquisa por
"sonhos de uma noite de verão", verificamos a existência de imensos links. Por outro lado a
inversão desta frase,
"pesadelos de um dia de inverno" não dá resultados nenhuns. Estranho.
A Viagem de Chihiro
Hoje à noite, pelas 22h, no
Jardim Marginal de Viana do Castelo, a exibição ao ar livre, do vencedor do Urso de Ouro do festival de Berlim de 2002. A viagem de Chihiro, do mago da animação,
Hayao Miyazaki ("
A Princesa Mononoke", 1997), é o relato da história de uma menina de 10 anos que vendo os seus pais sofrerem uma terrível transformação, se vê obrigada a trabalhar para uma bruxa, a fim de salvar a sua família.
Imperdível.
Dutch Provos
PROVOS
The White Bike Plan proposed the banning of environmentally noxious cars from the inner city, to be replaced by bicycles. Of course, the bikes were to be provided free by the city. They would be painted white and permanently unlocked, to secure their public availability.
Sexta-feira, Agosto 15, 2003
+
Superlativo. Quero.
Sei que sim. O
Desfilam bailados sobre andas
Telefono-te. Distraído.
Contigo.
Mil vezes rejeito os pensamentos
A calma. Janela para um sol.
Um absorver um desejar de eternidade.
Terça-feira, Agosto 12, 2003
Parti para não sei onde
Parti novamente por caminhos que nunca alcancei. Parti em busca de desejo e de fabulosas encenações. Fui e vi uma ponte de desejos. Elevava-se alto sobre os pensamentos. O silêncio fluiu. Sempre resplandeceu sobre os meus ombros um desejo de provar esse silêncio. Lá, depois da ponte encontrei-te. Agora farei de novo a travessia. Novamente.
Mascaras
Vi-te tantas vezes
Vi-te assim de plumas vestida
Via-te sempre atarefada, de cã para lá, friorenta.
Sempre em busca de mais. De algo que não conheço.
Sei sempre que estas lá. Lá onde não há caminhos perdidos.
Aqui sei que te vi. Mal, mas sim. Vi. Queria estar no mar.
Vou ler-te mais uma vez.
7.
é no silêncio
que melhor ludibrio a morte
não
já não me prendo a nada
mantenho-me suspenso neste fim de século
reaprendo os dias para a eternidade
porque onde termina o corpo deve começar
outra coisa outro corpo
ouço o rumor do vento
vai
alma vai
até onde quiseres ir
Sines/Lisboa
1984
Al Berto
Antiga Sabedoria, Um Tanto Cósmica
So-shu sonhou,
E tendo sonhado quer era um pássaro, uma abelha, e uma borboleta,
Pensou com seus botões para que procurar sentir-se como qualquer outra coisa,
Daí a sua satisfação.
Ezra Pound
Domingo, Agosto 10, 2003
Maleitas
Caiu-me uma maleita. Caiu-me uma maleita nos ombros. Sabia a chuva, sabia a mel. Curei-a com doces respiros. Com leituras sossegadas. E em retiro fiquei aguardando o chegar da primavera.
Fugiram-me as forças.
Digo adeus ao que caminha. Perdi forças. Perdi energias. Este fim de semana sugou-me até ao tutano. Queria estar aí, mas não estou. Não vou porque fiquei sem forças. Porque o racional desligou-se do desejo. Espero-te aqui. Falta pouco. Aqui. Até lá... vou
oulendo-te.
Sábado, Agosto 09, 2003
d'As Vinhas da Ira
E falavam das terras que tinham deixado para trás. Não sei como vai ser, diziam eles. Este país está por conta do diabo.
de John Steinbeck
Até parece um país conhecido...
Lisboa
Regressei apenas para te ter nos braços por um instante. Vi-te ao longe desperta, com todos os teus sentidos para uma nova caminhada. Para um sentir cheio de vivacidade e abraçando tudo o que rodeia o nosso pequeno mundo. Vi-te aqui novamente. Vi-te ali, aqui longe. A distância do dia seguinte. Sabias que é maior para quem parte? Porque percorreu a distância. Embora durante a acção esteja aliviada a saudade, após a mesma a ressaca é pior. Que pensas? Que vês? Como catalogas o mundo que te rodeia? Os teus amigos? Os teus país? Eu?
Estou de regresso a Lisboa. De regresso esperando o teu. Para os nosso encontros noctívagos. Para falarmos de mundos de plasticina, onde em 3 minutos apenas, visitamos 3 mulheres, descerramos bandeiras e repetimos até à exaustão o prazer de imaginarmos distraídos perante uma câmara indiscreta.
Para recordar
ACABOU o
CAROCHA
Aquele que foi para muitos um sonho de carro e que conta já com mais de 70 anos de vida, acabou. Agora só procurando em segunda mão.
Uma boa gargalhada
Vamos
rir. Talvez seja um dia património da humanidade pela UNESCO.
Já riu hoje?
Quino
Quino é cartunista de um tempo em que as pessoas, embora fossem mais ingênuas, ao menos estavam indignadas com tudo isso que aí está.
dito por marcelo träsel
Quinta-feira, Agosto 07, 2003
Gotas de água
Gota de água
Verão. É um desejo.
Um filme. Um presente e um futuro.
Vários filmes. Um projecto.
Uma gota de verão. Uma gota de ti aqui.
Desenho animado em areia quente.
Seda, cetim, um nervoso miudinho.
Aquele mergulho no tempo em busca de ar.
Um mar imenso para desejar. Para viajar. Para nos vermos aqui, ali, por este país fora.
Napalm
Foi divulgada a utilização de
napalm, pelos
americanos, no
Iraque. Uma utilização
legal e necessária.
Fonte: TV5
e News24
Ainda é preciso comentar?
Planeta Malmequer
Sim, quero. Vou ali saltitando ver o que quer o querer da outra pétala. Será que quer ou então procura apenas disfarçar o ser? Entrelaço-me nele em busca de outro querer. Será que quer? Sim, quero. Saltito ali e acolá em busca de um tesouro. Vou ali. Cá. Uma outra pétala que quer o querer de ouro. E quero que o teu querer seja sempre mais que o meu malmequer que quer que o bem e o mal se queiram com querem os irmãos siameses. Os siameses? Percebes? Que mais odiosa relação pode existir. O querer e o não querer faz aqui algum sentido? Claro que não. O querer é um camião que atropela quem fizer esta auto-estrada. Quem quer deixa de querer. As vontades ficam estateladas no asfalto quente do verão. Derrete o chão e o camião carregado de malmequeres guina e guina e guina e guina. Enche o preto fétido de amarelo mal amado. Quer que quis que assim fosse. O destino. Quem mais.
Quarta-feira, Agosto 06, 2003
Dançarei
Se tenho tanto para dizer? Porque não digo? Porque é tão simples ficar calado? Tempo de rever a fórmula que se esgota. Tempo de voltar à oficina da palavra. Tempo de aprender e lutar por um novo desafio. Dançarei. Dançarei sempre.
Segunda-feira, Agosto 04, 2003
1.
nomeio constelações uso-as
para me guiarem no receio das noites
escavo corpos na flexibilidade das sombras
atravesso a manhã e ponho a descoberto
a casa onde a infância secou
o olhar desce aos gestos inacabados
satura-os de jovens lágrimas de resinas
e o susto da criança que fui reviva
um pouco de alegria no coração
Al Berto
Regresso
Chegou-se ao pé de mim esbaforido. Sentou-se e contou-me que estivera em Marrocos durante os últimos meses. Perdera-se na areia do deserto no meio de uma tempestade de areia. Entretanto caira a noite. Ele estava na tenda pensando se tudo aquilo não levantaria voo a um sopro de Zeus. Por fim adormeceu. Quando acordou a tempestade passara. Saiu e para sua surpresa era o único no acampamento. Aliás, já não havia acampamento. Só estava ali a sua tenda. E um infinito plano de areia em redor. Ao fim de diversos meses regressara. Estava de volta. Mais magro, com uma barba bestial. Loira, vivaça. Daquelas que fazem o imaginário de um homem rude, vivido e experiente. Sentou-se ao pé de mim, como disse, e contou-me essas peripécias que viveu lá 2000 km a sul.
Perguntei-lhe “que queres fazer, agora que regressaste?”
Levantou-se dirigiu-se ao meio da praça e gritou-me:
- Zetes está vivo, Artur regressou. E
tudo o que me resta é o que partilho contigo: uma existência de papel. E acrescentou
assim me habituarei a morrer sem ti
com uma esferográfica no coração
Excertos do livro “Uma Existência de Papel” de Al Berto
Tremor de terra
Estive à procura do epicentro deste tremor de terra. Procurei nas fórmulas antigas o segredo da sua fabricação. Falei com curandeiros, com bruxos e adivinhos. Li livros e fui a bibliotecas. Perguntei a sábios e professores. Observei rostos na rua em busca daquele que tivesse a chave que procuro. Palmilhei vários quilómetros descalço para sentir a areia e esperei que ela me transmitisse essa explicação fundamental. Falei com dragões viajados. Velhos saciados. Pederastas e prostitutas. Falei com homens de poder, homens de religião. Falei com o além e pedi ajuda a troco de promessas. Viajei até aos confins do continente negro em busca de um velho sábio. Subi uma montanha nos Andes para a descer novamente. Fui ao deserto mexicano procurar um nativo que me soubesse explicar o que era este vento. Voltei a casa e perguntei ao meu pai, à minha mãe. Falei com amigos, inimigos e outros. Falei com cientistas e médicos e doutores.
Nada.
Ninguém sabia que fulgor era este de que falava. Porque sentia que tocava. E o silêncio levava-me de encontro a ele.
Sábado, Agosto 02, 2003
Nostalgia
Começarei a escrever no instante em que partires. Apenas nessa altura e não antes. Não me verás de olhar disperso, de olhar perdido, seco, triste. Serei apenas uma imagem bela, nostálgica. Serei aquilo que ocasião merece. Bebo um Porto a tudo o que virá depois. A peça principia dentro de instantes. Sente-se no ar as pancadinhas de Molière. Sente-se uma atmosfera festiva. Tudo está parado. Tudo está aqui ao alcance de um estender de braço. Eu e tu. Perto. Longe. Tão perto. Tão perto. Como sentimos o passar do tempo devagar. Como sentimos que os outros perdem aquilo que encontramos e não nos vislumbram. Viajamos. Vamos longe em busca de um pormenor. Subimos montanhas para suster a respiração. Lá, inalamos aquele ar rarefeito e continuamos inebriados pela falta de oxigénio. Sentimos o cansaço do prazer, das caminhadas que fizemos a par. Em silêncio, conversando, como sempre o fazemos.
Jazz na Praça da Erva.
Lentas são as noites. Como uma suave melodia que se pretende doce, o Jazz transporta-nos para longe, não nos imaginamos mais ali. Estamos num relvado neste verão quente. Procurando o melhor silêncio dos nossos corpos e procurando. Os que encontraram passaram pela praça da Erva.
Este ano a programação é feita ao longo de cinco noites em espaços diferentes. As noites da Praça da Erva acabaram, continua o Jazz. Hoje e amanhã.. na praça da República. Um espaço maior para nomes maiores. Continua contudo o espirito e a busca.
Se ainda não organizou nada para hoje à noite e para amanhã...
Dia 2 – Stanley Jordan & Novecento "Groove Machine"
Dia 3 – "El Concerto de Sevilla" Trio Carlos Benavent: Carlos Banvent – baixo, Jorge Pardo – sax/flauta, Tino de Geraldo – percussão (Músicos da banda de Pacco de Lucia)
Como fazer poesia
Lição 4
Liç. anterior
Os Poetas
Inventam até o fruto
Que mal chega a dar prazer.
E, de minuto a minuto,
Mudam, a cantar, de luto,
Que o seu destino
É morrer ...
Vivem, apenas, por vício.
Ai! Voos de asas quebradas!
Neles, há sempre um cilício
Feito de virtude ou vício
Que lhes tolda as madrugadas.
Tudo o que sentiram disse-o
A voz que nunca diz nada.
- E os poemas?
- Exercício
De ginástica aplicada...
Pedro Homem de Mello
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