6H Agridoce - netcast de tecnologia, ciência e internet

Emissão em mp3 sobre Linux, open source, novas tecnologias, exploração espacial e os limites da ciência.

Terça-feira, Setembro 30, 2003


 

Secando ao Sol

@mar.mes - clique para ampliar
Quanto mais passado eu tenho
Menos duram os meus instantes

Gianoukas Papoulas

Mãe, quando temos um sonho, como o podemos guardar?

Aquela vez em que fomos partindo. Fomos sendo novamente um desatino. Um desejo de ver e caminhar. De sentir a tristeza sincopada com o teu desejar. O que me resta? O que vou ver para além de uma montanha? Ver-te. Vejo-te em cada inspiração. Serás a rosa que murchou no jardim. Secou e disse que há formas de te ver aqui sentindo a meu lado. Olhar para o futuro. Ver-te. Admirar um por do sol.

Colocas os sonhos dentro de uma concha feita com as mãos. Depois vais lá fora, à corda da roupa e prendes o sonho com as molas da roupa. Fazes como a rosa que está ali em cima da mesa da cozinha. Secas os sonhos lá fora na corda e depois podes guardá-los para sempre.

Segunda-feira, Setembro 29, 2003


 

Voltei

Prometo responder rapidamente aos que me enviaram emails e espero estar no ritmo normal dentro de momentos.

Sexta-feira, Setembro 26, 2003


 

Palermas

@mar.mes - clique para ampliar
Não percebo o andar do mundo. E não percebo porque o mundo anda assim tão solto, tão perdido e vagabundo. Não há hoje linhas de força pelas quais as pessoas se apaixonem neste pós-modernismo. “Ser-se absolutamente moderno”. Não há ideias geniais. Somos um planeta de despercebidos e de desentendidos. De ausentes do nosso tempo. Onde ninguém se compromete ou afirma seja o que for, com medo do vizinho que critica, que pode ouvir, que pode censurar, que pode... certamente prejudicar mais que ajudar. Pode ser como eu. Uma vergonha este amorfismo que somos, onde neste preciso momento todos olhamos para a biqueira dos nossos sapatos italianos. Alguns dirão "somos ausentes por opção, com muito gosto". Parabéns a todos. Parabéns Planeta. Milhões de anos de evolução para produzires uns seres insignificantes que tudo o que querem é ser esquecidos. Parabéns palermas.


 

Gianoukas Papoulas

Se não és o Olavo, o seguinte texto não é para ti. Salta directamente para o site dos Gianoukas Papoulas e ouve o trabalho deles.

OLAVO,
Ainda não ouvi o CD, porque neste momento estou de viagem no norte do país, mas informaram-me que o CD já chegou a Lisboa. Quando voltar prometo ouvir com muita atenção. Desculpa deixar esta mensagem aqui, mas estou sem email durante a viagem. Só voltarei a ter email na próxima semana.
Um abraço.

Quarta-feira, Setembro 24, 2003


 

Um ombro desnudo

Perdi-me em serras e serranias. Em vales de curvas. Em desejos e volteios. Em vontades de amar. E querer o mar que nos cega. Em cavalos que são paisagens eternas. Em voltas de vitrolas. Sigo a linha do teu ombro, subo ao pescoço. Eis que te toco, sinto-te a tocar-te. Ao receber o meu toque. A sentir assim o passar eléctrico das pontas dos dedos. A sentir. Festim de sentidos. Volteando para onde quero ver-te. Aqui tão perto. Tão perto.


 

Através

@mar.mes - clique para ampliar
Quando um fotomote é permanente. Através de rumos, de passados, de pessoas e de tempos. Formas de ser, ver e estar no presente atravessado por luares, por sombras de todos os tempos. Estilhaços que sobram de outras guerras aqui travadas, aqui chegam e perfuram as armaduras coloridas de cavaleiros heróicos. Chegam ao âmago. Ao coração e sorriem. Desfazem o passado e preparam o futuro através de mim e de ti. Através de nós e nós somos aqui. As lanças do passado seguem velozes no ritmo do nosso tempo.
Somos. Fomos. Seremos.

Terça-feira, Setembro 23, 2003


 

Uma página

O meu editor disse-me que tinha que escrever uma página inteira. Disse-mo enquanto se precipitava escadas fora para um almoço qualquer. Fiquei sem saber sobre o que tenho que escrever. É assim a vida de uma estagiário. Passa-se uma manhã sem fazer nada. Arrastando os pés pela redacção sem fazer rigorosamente nada. Viajando da máquina de café ao dispensário e daí até à sala de fotografia. Os fotógrafos são tipos estranhos na redacção. Normalmente preferem andar juntos. Fecham-se numa sala sozinhos e falam uns com os outros. De vez em quando sorriem. Mas não gostam dos redactores. Porque afinal nós temos que escrever. Os jornais são escritos. Não há ainda foto-jornais. As pessoas sabem as notícias pelo que lêem, não pelo que vêem. Embora ajudem. E eu aqui a devanear sobre estes tipos. Quero escrever e falo deles. Mas como sou estagiário, posso permitir-me estas faltas. E há um tipo estranho entre os fotógrafos. Passa a vida a limpar a objectiva. Mal fala com os restantes companheiros. Mas é muito divertido. Por vezes quando me vê, atira-me com um rolo e depois diz "agarra". Nunca deixei cair nenhum. Mas ia acontecendo. Quando vou à sala dos fotógrafos nunca passo em frente ao gabinete do director. Ainda me mandava buscar um café ou coisa semelhante.

Voltando ao director. Saiu. Pediu-me um texto de uma página. Ora um texto escrito como deve ser um texto jornalístico deve obedecer àquelas regras formais. O lead a começar. ... Ups.. o meu lead? Onde anda? Acho que boicotei a minha primeira notícia. Para além de que uma notícia tem que obedecer a outro princípio tão esquecido na nossa praça: Tem que haver notícia. Tem que haver sobre o que escrever. Agora o meu editor pediu-me uma página até ele voltar? Mas onde terá ido ele? Quanto tempo terei para escrever um página?

Vou entregar-lhe uma página em branco. Afinal ele disse que queria uma página, não disse se escrita, se em branco. Para além do mais não disse que tamanho quer a página. Pode ser A4, A3 talvez. Acho que vou aos maquetistas e peço-lhes uma folha de cenário para o chefe. O problema é que se fizer isso amanhã não venho trabalhar na certa. Mas que raio. Porque não me manda fazer qualquer coisa mais interessante? Fazer a cobertura de um congresso de velhotas engessadas, era mais animado que passar o dia aqui sem fazer nenhum. Mas uma página. Acho que lhe darei uma página pequenina, sem muitas hipóteses de refilar. A5 ou A6. Para, que se ele disser que aquilo não tem nada, eu possa dizer que a culpa é do papel. Que mingou. É a crise. Até uma página tem que apertar o cinto de vez em quando.

"Olá chefe, aqui está a página pedida, 496 palavras, 2832 caracteres, 7 parágrafos, 43 linhas, uma verdadeira página, escrita com todo o enjeito possível, dado o apertar da hora."

7 da tarde.
Grande almoço, meu chefinho. Grande almoço.


 

Relógio

Tinha um relógio de cuco numa sala. Era verde, a sala. O relógio vestia-se de mogno castanho. Alto. Quando o olhava os meus olhos ficavam pela altura do pêndulo. Por vezes o cuco não cantava. Aí a minha avó subia para uma cadeira, abria o mostrador e dava-lhe corda. Depois acertava-o pelo relógio que estava em cima do aparador. Outras vezes pelo sino da igreja. A corda durava um mês. Por vezes apenas se atrasava. Então ia lá, abria o mostrador e arrastava o ponteiro lento para o sítio. Memória de um relógio de cuco. Nem sequer me lembro se seria um relógio de cuco. Podia ser apenas normal. Mas lembro. Relembro esse processo de acertar o mesmo como se fosse um de cuco. Afinal ouvia-o. Ouço-o ainda hoje passados tantos anos.

Sexta-feira, Setembro 19, 2003


 

DOLLS, de Takeshi Kitano

Branco, alvo, neve, frio. Vermelho. Sangue, outono, inverno, primavera.
Outono, inverno, primavera.
Outono, inverno, verão, primavera, sangue, dor.
Frio, encarnado, alvo, branco, frio, alvo, outono, inverno.
Navio, parte sem destino. Frio, oceano, deserto, verão, outono, inverno.
A corda, acorda. A corda _._._._._._._._._._._._._._._._._._._._.
A neve, o frio, o sangue, a sangue, o frio, a neve, de neve, rosto. Alvo. A corda. Acorda a neve a corda. Branco. Alvo neve frio vermelho frio sangue outono inverno.


 

O autocarro pintalgado

O autocarro pintado corre veloz pela estrada fora. Para e arranca a cada curva e cada recta parece uma avenida sem fim. Caminha alegre o autocarro pintado. Neste autocarro cada um pinta sua cadeira. Afinal muitos nomes. Cada um recebe à entrada uma trincha e um pincel. Com eles pinta o seu banco na cor que lhe apetecer. Há tinta em baldes espalhados pelo autocarro. Apenas não há preto nem branco. Não se podem fazer cinzentos. Nova curva, a Albertina entorna uma lata de amarelo. Vai tudo de rodos. O chão ficou uma mar de sol. Novas trinchas se precipitam para outro calor. Flores. São flores. Girassóis. Meus olhos misturam azuis e saem verdes com os sois de Albertina.
Onde vais Albertina?
Vou à baixa. Tenho um dente de elefante em casa e coitado do elefante, deve fazer-lhe falta, para trincar a comida, o dente.
Azul. Castanho. Amarelo. Verde. Assim se vai pintando o autocarro. Acelera. Gotas de carmim correm impelidas pelo vento que passa. Enchem o autocarro de linhas horizontais. São sinais da velocidade. O Sr. Motorista vai atrasado. Sabe que o relógio de cuco da estação vai tocar em breve. Pinta-se aqui e ali. As janelas tem estrelas. Chega ao fim e o Sol vai-se escondendo. As cores ficam mais ocres. Quentes. O Autocarro recolhe ao ninho no cimo de uma macieira pintalgada de maçãs vermelhas. É noite. Fecham-se as latas de tinta. Os pincéis recolhem ao diluente e sossega sozinho o autocarro. Amanhã corre novamente. O Sol desapareceu e com ele as cores foram dormir.

Quarta-feira, Setembro 17, 2003


 

Escrever

Esta é a minha Rotring do momento.


Terça-feira, Setembro 16, 2003


 

Desencontros

Falhei mais uma vez a minha presença aqui. Aqueles caminhos até à baixa, pareciam-me ser curtos. Imediatos. Seria fácil chegar lá onde estavas. Mas depois entrei naquela livraria, não tanto para procurar o livro que agora seguro nas mãos, mas antes talvez, para me abrigar do calor. Pareceu-me fresca a livraria. Estava a fugir de algo e aquele pareceu o meu refugio. Fiquei um momento hesitante antes de colocar a mão na porta. Depois quando a empurrei, ouvi uns sininhos que avisavam o livreiro da entrada de algum cliente. Logo apareceu e desejou-me as boas tardes. Se me podia ser de alguma assistência. Disse que não, que ia apenas vaguear pelo meio das estantes em busca de algo interessante. Perguntei-lhe se tinha algo sobre a Manchuria. Não tinha, carregando novamente os óculos para os olhos. Era o seu tique, percebi mal ele saiu de trás de uma pilha de livros. O empurrar os óculos bem para a frente dos olhos. Andei então e fui-me perder ali detrás daquele monte de livros à espera de serem colocados nas prateleiras. Sentei-me no chão e comecei a arrumá-los. A cada livro que arrumava dava uma pequena leitura para ver se gostava. Por vezes olhava só para a capa. Bastava isso. Quando me faltava um livro, tinha já a estante cheia, senti um olhar por cima do meu ombro, era o livreiro, novamente com o tique dos óculos. Sorriu. Vamos fechar. São nove da noite. E este? Que lhe faço? Fique com ele. Ofereço-lho.


 

sreá vdraede, ou mreo haox?

De aorcdo com uma pqsieusa de uma uinrvesriddae ignlsea, não ipomtra em qaul odrem as lrteas de uma plravaa etãso, a úncia csioa iprotmatne é que a piremria e útmlia lrteas etejasm no lgaur crteo. O rseto pdoe ser uma ttaol bçguana que vcoê pdoe anida ler sem pobrlmea. Itso é poqrue nós não lmeos cdaa lrtea isladoa, mas a plravaa cmoo um tdoo.

Do träsel

Segunda-feira, Setembro 15, 2003


 

Uma excelente ideia

No próximo Domingo durante a manhã, a marginal vai estar novamente fechada. Todos os que quiserem, podem passear livremente pela marginal, quer andando, correndo, ou pedalando. Para os últimos, e se não tiver bicicleta, a câmara de Oeiras disponibiliza 50 (tão poucas?) bicis junto à Piscina Oceânica ou Junto ao Centro de Juventude em Nova Oeiras. Por outro lado na Segunda volta o dia europeu sem carros, e mais uma oportunidade para andar de bici e ver as cidades de forma diferente. Aproveite para passear nestes dois dias. Deixe o carro em casa. Uma excelente ideia esta, que apoio e onde vou participar.


 

A cobra

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Havia uma vez um deserto muito grande, tão grande que Portugal inteiro cabia lá dentro. Era um deserto onde habitavam animais estranhos, raramente vistos pelos homens, mas que os antigos afirmavam existirem. Eram também os anciãos que faziam todos os anos a rezas para proteger o oásis desses seres estranhos que vagueavam pelo deserto. Diziam que eram maiores que 3 camelos juntos. Nunca acreditei muito nestas histórias de anciãos. Mas sempre as cumpri. Um dia, estava eu no escritório em Paris, surgiu-me um amigo do oásis. Um daqueles amigos que nunca vemos e que sabemos virem lá chatices mal o vemos entrar pela redacção dentro. Trazia grandes novas. Finalmente a prova, os anciãos bradavam aos céus e os jornais de todo o mundo quereriam aquela foto. Havia provas. Uma foto dos mil olhos daquele ser misterioso antes de se refugiar na areia. De regresso à sua toca. Dizia ele que nesse dia começara a chover e o bicho dormindo, não se apercebera. Quando as pessoas do oásis chegaram a menos de 50 metros acordou e fugiu rapidamente. Mas apanharam uma foto dele, esquiva, onde se viam os olhos. É esta aqui. Toma. Sei que não acreditas muito neste tipo de coisas. Faz o que quiseres com a foto.

Quinta-feira, Setembro 11, 2003


 

Vi-te

Vi-te de relance ali tão perto. Toquei-te ao de leve para te ver estremecer. Porque te queria tocar. Porque te queria ver. Aqui friorenta de zibelinas, como disse um dia o poeta. Queria ver-te sentir. Seres um ser em êxtase. Em convulsão e desejos ardentes. Queria que o frio não fosse mais uma barreira. Que o não existisse mais aqui nem ali nem lado algum. Mas uma maçã atravessou-se no nosso caminho. Uma pura maçã oferecida ao tempo. Um passado e um futuro, traçados à margem da felicidade. Assim continuarei a ver-te aqui de longe. Tão perto. Imaginando tocar-te e olhando, da floresta, quem passa e quando passa. Vigilante. Sossegado. Em paz. Dentro da curva certa do tempo.


 

Patifes

Era uma vez na América. Na desolada, na não revelada, na não polícia do mundo, na não Nova Iorque dos Yuppies, na não Wall Street.
Era uma vez outra América. A das pequenas histórias de mortes e mortos e assassínios e droga e violência e violações e noites de guerra, rua a rua, casa a casa, de tudo aquilo que não queremos saber da América. Que está lá e não queremos saber. Está lá. Não queremos. Não. NÃO.


 

Comunicar

Não vos irritam aquelas pessoas, que adicionando-vos ao ICQ ou ao MSN, nada dizem depois? Aquelas que ficam à espera que sejamos nós, que fomos contactados, a dizer a primeira palavra. Quem adiciona alguém é que tem que estabelecer o primeiro contacto, penso eu. Porque motivo falaria eu a alguém que não procurei. Quem me procura que me dirija a palavra. Não sabem o que me dizer? Não me adicionem às vossas listas. É simples.

Se por outro lado tiverem alguma coisa a dizer... digam.


 

Recados

Eles passariam despercebidos, se não fossem tão necessários. Afinal que querem de mim? Espero que nada, pois sou apenas eu. Um escritor auto-criticado. Um poeta retractado em pequenos discursos inverosímeis. Sou fugaz. Sou um lilás. Vão todos para aquela parte que ... vou ler-vos...

Alocução de Abertura
(2 de Maio de 1942)

Camaradas! Hoje fostes convidados para nesta reunião trocarmos pontos de vista sobre a ligação entre o trabalho literário e o artístico e o trabalho revolucionário em geral. A nossa finalidade é assegurar à literatura e à arte revolucionárias os meios para se desenvolverem saudavelmente e darem um contributo mais fecundo às actividades revolucionárias para que o inimigo da nossa nação posse ser vencido e a tarefa da libertação nacional cumprida.


Outra passagem.

- Mas a mentira nos discursos? É por vezes útil a alguns, de modo a não merecer o ódio? Relativamente aos inimigos e àqueles a quem chamamos amigos, quando impelidos pelo furor ou pelo desatino, empreendem alguma acção má, não é útil como remédio para os desviar disso? E nessas histórias de que falávamos há pouco, quando, não sabendo a verdade sobre os acontecimentos do passado, damos a maior verosimilhança possível à mentira, não a tornamos útil?
- Sem dúvida que assim é.
- Mas por qual destas razões a mentira seria útil a Deus? Será a ignorância dos acontecimentos do passado que o leva a dar verosimilhança à mentira?
- Seria ridículo – disse ele.


E continua... mas o caminho que toma já não me interessa.
Alguém adivinha de onde tirei estes excertos? Se sabe não divulgue. Mas se não sabe, pergunte. Talvez eu responda aqui. Mas os dois ligados fazem um estranho sentido. Principalmente Observando com o distanciamento do tempo que foi lá atrás.

Terça-feira, Setembro 09, 2003


 

Ele

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São quatro da manhã. É o último dia. Hoje é o grande dia. Tenho que acordar. Daqui a pouco vou apanhar o ônibus e tenho que ir para a marginal. Onde está a minha bandeira? Vesti-me a correr. Desci o morro de bicicleta do Zézinho, que ele só precisa dela no fim da tarde. Os saltos do caminho fizeram-me perder a bandeira duas vezes pelo caminho. Tive que parar para a apanhar. Deixei a bicicleta na garagem do ti’Jonildo. Apanhei o ônibus mesmo no limite. O próximo iria chegar atrasado de certeza. Encontrei mais pessoas que iam para a manifestação de apoio. Todas de laranja. Todas ainda cheias de sono. Encostadas ao vidro, encostadas umas às outras. Por fim chegamos, fomos descendo. Eram 9 da manhã. Ele passaria às 11.

Domingo, Setembro 07, 2003


 

Chiu

Chiu!... Silêncio, estou a ouvir as estrelas que descem sob a abobada celeste.

Sexta-feira, Setembro 05, 2003


 

Nada

Há alturas em que não me apetece dizer nada. Mas há alturas em que me apetece dizer tudo. No meio destes extremos surge o que digo. Digo sempre menos de metade do que aquilo que quero dizer. E embora os apetites sejam sempre diversos, aqui brinco. Posso. É meu. Ninguém dá por nada. Mas é tudo a brincar. Não levem a mal.
Volto segunda-feira, que este fim de semana descanso de vocês. Até lá...

Start spreading the news
I'm leaving today
I want to be a part of it, New York, New York
These vagabond shoes
Are longing to stray
And make a brand new start of it
New York, New York
I want to wake up in the city that never sleeps
To find I'm king of the hill, top of the heap
These little town blues
Are melting away
I'll brand a brand new start of it
In old New York
If I can make it there
I'll make it anywhere
It's up to you, New York, New York.
 
I want to wake up in the city that never sleeps
To find I'm king of the hill, top of the heap
These little town blues
Are melting away
I'll brand a brand new start of it
In old New York
If I can make it there
I'll make it anywhere
It's up to you, New York, New York.

Quinta-feira, Setembro 04, 2003


 

Oferece-se

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Quando o Joaquim entrou naquela estação, estava longe de imaginar que entraria para a história. Muitas pessoas entram para a história pelas mais diversas razões, por terem sido o primeiro a ir à lua, por terem sido o primeiro a atravessar uma ponte (lembram-se há uns anos?), por ser o primeiro em qualquer coisa. Aqui o Joaquim não sabia, mas foi o último a entrar naquela estação de comboios. Ali partia o rápido para debaixo do colchão e como o cotão invadia o quarto, a linha deixara de fazer sentido. Essa, que outras onde as formigas andavam no carreiro continuavam a encher a grande sala de gente. O cotão era o amigo dos donos dos comboios. Que quando queriam acabar com uma linha, deixavam de varrer o chão. O cotão instalava-se, as pessoas começavam a ter alergias e depois desistiam de viajar. Aliás o Joaquim sabia que era a sua última viagem para debaixo da cama. Porque já não aguentava o cotão. Havia uma lei que impedia que as pessoas se desfizessem dos serviços que forneciam neste país. Assim os donos dos comboios apenas podiam esperar que as pessoas deixassem de andar. E depois tentavam passar a batata quente a outra pessoa. Isto porque também não havia dinheiro neste país. Não fazia sentido para as pessoas cobrar fosse o que fosse pelo trabalho realizado. Trabalho era trabalho. Tinha que ser feito. Era inerente à condição de todos. Da mesma forma que quando alguém utilizava o serviço prestado por outro, não pensava na possibilidade de o pagar. Não fazia sentido. Assim os donos dos comboios tinham a vaga esperança que quando as pessoas não quisessem mais andar naquela linha, houvesse alguém a quem pudessem oferecer a estação. Assim seria por exemplo, propriedade do padeiro e desta forma não haveria mais comboios a circular ali. Mas estávamos em tempos de crise e até voluntários para receber a estação faltavam. Assim a administração mandou pintar em letras garrafais OFERECE-SE, na fachada do edifício. E assim ficou. O Joaquim que fora o último passageiro, era pintor, e todos os anos era o responsável por pintar as letras entretanto esbatidas, da oferta. Assim o fez durante 14 anos. Demorava uma tarde a pintar as letras. Afeiçoou-se à casa com o passar do tempo e hoje a estação é uma loja de tintas industriais para loiças de casa de banho. O Joaquim não vende. De cada vez que lá vai um cliente oferece umas latinhas de tinta muito pequeninas. Nunca ninguém quer mais do que 2 ou 3 cl de tinta. E apenas pede às pessoas para ouvirem a história dos comboios que ali passavam outrora. Afirma ele que de vez em quando vem um vento forte debaixo da cama e que ao longe ainda se ouvem os comboios, mas é tudo mentira. Deve ser o cotão a mudar de sítio.

Quarta-feira, Setembro 03, 2003


 

1. / 4. Vigilias / Uma existência de Papel / Al Berto

quando aqui não estás
o que nos rodeou põe-se a morrer

a janela que abre para o mar
continua fechada só nos sonhos
me ergo
abro-a
deixo a frescura e a força da manhã
escorrerem pelos dedos prisioneiros
da tristeza
acordo
para a cegante claridade das ondas

um rosto desenvolve-se nítido
além
rasando o sal da imensa ausência
uma voz

        quero morrer
        com a overdose da beleza

e num sussurro o corpo apaziguado
perscruta o coração
esse solitário caçador

Uma existência de Papel - Al Berto


 

Hem...said

"I always try to write on the principle of the iceberg.
There is seven-eighths of it underwater for every part that shows."
Ernest Hemingway


 

Todo o sempre

@mar.mes - clique para ampliar
Durante vários dias o vento toldou a praça e fez zunir os sinos lá em cima nas torres de igreja. Nesses dias não vim para aqui. Os turistas estavam lá em baixo, na praia, e não faziam visitas à igreja. E eu tenho que estar onde está o turista. Viajei muito na vida. Pelo menos penso que sim. Não me lembro de nada. Não tirei fotografias, não escrevi memórias. Mas penso que viajei, pelos rostos que conheci. E conheci muitos. Mas também podiam apenas ter sido turistas, clientes. Mas certamente viajei. Lembro-me apenas do último mês, talvez. Mas o último mês estive aqui. Aqui ou na praia, que estou onde o turista está. Hoje voltei para a igreja. Vi que o tempo melhorara. Certamente haveria turistas a visitar a igreja. Vim ainda de manhã cedo, mas não apareceu ninguém até aparecer a menina com a sua maquineta. Quer tirar um foto? Faz favor. Não quer levar um fitinha? Uma pulseirinha? Arranja-me um cigarro? Não fuma? Faz bem. Olhe aqui estas pedras dos signos. Já viu que belas?
A vida quebrada pelo mar, a vida quebrada pelo ritmo das viagens da praia à igreja. De lá para cá, em busca do turista. Em busca de migalhas. De memórias do passado. Chico Arlinho nunca saiu daquele adro de igreja. Nunca soube o que era a cidade e nunca conheceu mais que os rostos dos clientes que se cruzam com ele. Chico Arlindo ficou lá, sentou-se a fumar um cigarro enquanto eu me afastava. Antes de entrar para o meu carro, fotografei-o. Depois ficou a olhar para mim. A sorrir. Eu esqueci-o passados 20 segundos. Lembrei-me dele anos depois quando descobri a sua foto entre tantas outras. Pensei no que faria? Certamente estaria ainda sentado naquele degrau a contar que viajara por todo o mundo, que conhecera muitas pessoas e que não tirava fotografias nem escrevia memórias.
«Não quer levar um fitinha? Uma pulseirinha? Olhe aqui estas pedras dos signos. Já viu que belas?»


 

Olhares

Quando olhei, vi-te ao de leve. Rapidamente fugiste. Curiosamente, no mesmo instante em que outros ventos do teu país me tocaram. Outros vieram, partiram. Os passos da minha vida foram dados levemente. Agora vi-te, agora escapaste. Agora sou eu novamente quem viaja para além do espelho e me encontro. Reencontro. Quero sair daqui, fazer um telefonema para longe. Para onde o vento encha o meu ar de pétalas de malmequer e eu seja um pequeno ponto, concentrado de felicidade. Minguado à pequenez de um observador de estrelas, deleitado com a vastidão do silêncio, da distância e solidão errante.

Terça-feira, Setembro 02, 2003


 

A viagem

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Caminhei durante dois dias em círculos. Sem saber muito bem para onde ir. Sem saber o que fazer. Tinha 18 anos e acabara de enterrar o meu pai. Ficara sozinho. Nunca saíra da terra. Sempre ficara aqui, ou pelas redondezas. Lidara com os porcos, com as vacas, as cabras e as ovelhas. Desisti da escola depois de ter feito a quarta classe com 13 anos. Era velho para continuar a estudar. Fui para o campo trabalhar e ajudar os meus pais. Agora que partiram ambos, fiquei sozinho. Não conheço mais ninguém da família. Talvez me procurem, se estiverem vivos. Andei dois dias em círculos a decidir o que fazer.

Levantei-me de manhã cedo, umas 4 e 30 talvez. O galo do vizinho já cantava. Preparei um farnel na cozinha que embrulhei numa toalha e meti dentro de um saco. Fui limpar as minhas botas que estavam enlameadas da lavoura e penteei-me num pequeno espelho que exista no quarto de passar a ferro. Ainda passei pelo curral e deitei um fardo de palha ao gado. Eram 6 da manhã. Saí. Fui esperar a carreira que me haveria de levar. Demorou ainda a chegar. Pedi um bilhete e sentei-me. Andamos durante quase 13 horas. Ao fim da primeira, já não sabia como estar sentado.

Ainda não o vira. Nunca o vira antes. Como seria? Senti o nervoso a caminhar por mim acima. Os joelhos a tremerem. Tinha que avançar com cuidado. Ficava lá em cima. Daqui ainda não se via. Era quase noite e tinha que procurar onde dormir. Mas agora tinha que ir lá cima vê-lo. Nunca o vira antes, mas muito me tinham falado dele. O meu pai falava dele no tempo que estivera em África e das viagens que fizera para lá e para cá. Eu nunca o vira, embora sempre o tivesse imaginado.

Cheguei-me ao muro para me segurar. As forças faltaram-me. Tive que me sentar. Passei as pernas para o outro lado, dependuradas, e pasmei. Nunca vira nada tão belo. Tão impressionante. Tão violento e ao mesmo tempo capaz de criar uma extraordinária sensação de paz. Tão plano que é. Como pude perder isto durante tanto tempo? Passado algum tempo, pouco, ela veio sentar-se ao meu lado. Em silêncio. Sem nada dizer. Contemplando também.

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