6H Agridoce - netcast de tecnologia, ciência e internet

Emissão em mp3 sobre Linux, open source, novas tecnologias, exploração espacial e os limites da ciência.

Domingo, Fevereiro 29, 2004


 

Na cauda de um cometa

- Falta-me a coragem dos gestos heróicos.
- Faltam-me as decisões enquanto seguro a pena, com pena (baixando o tom).

Os corações que jamais serão dos sentidos dispersos. Perdidos. Nada sei. Que sei. Fui lentidão. Fui vazio. Oração. Passeei-me por essas vielas antes de dizer boa noite. Foi um instante que te vi. E as estrelas deixaram o céu. Vamos? Subiste e dançamos até perder os sentidos.

- Os nossos inimigos deslocam-se para nos flanquear? Que fazemos, senhor?
- Sorri enquanto vi a morte sorrir-me. Vi o torpor subir-me o braço enquanto tiravas aquela lança envenenada do meu corpo. Fiquei especado esperando-te, minha morte amiga. Foste tu quem me cativou. Quem me trouxe preso por uma corda nesta batalha. Que me fincou os pés e não permitisse responder ou sequer ouvir os perigos que se avizinhavam. Foram teus cabelos de oiro. Foram. Acredito que foram eles, quais raios de luz que me cegaram.

- Agora no cárcere serei eterno, farei como o poeta e cegarei, para que nunca mais me falte a visão e nunca mais mate os meus homens e amigos por ti, por esse efémero raio de luz.

- Porquê?
- Por nada senhora. Tontearias de um bobo de corte.


 

Biografia

E tudo se resumiu à evidência do pó.
Uma lenda, um ofício, uma teia de
apertadas mágoas que nunca mais
deixará passar a luz.
A tua luz, sol, lua ou juvenil chama dos
campos livres,
apagou-se violentamente.
Nos aquários da noite caiu uma estrela.
O mundo caiu sobre os teus ombros.

José Agostinho Baptista

Sábado, Fevereiro 28, 2004


 

Iceberg

"O primeiro parágrafo de tudo é como um iceberg. Quem tem medo contorna. Quem tem pressa afunda."
E os primeiros parágrafos são sem dúvida o meu terror. Porque o Livro, que apesar de ter nome para me entreter e pensar sobre o que quero, ainda não desenvolveu. Por vezes basta o primeiro parágrafo. Quentin Tarantino filma os filmes depois de ter a banda sonora. A música do filme é quem lhe dá o ritmo. Num livro essa tarefa pertence ao primeiro parágrafo. Ele marca todo o tom do que se segue. Mas falta-me esse primeiro parágrafo. A ponta do iceberg. Entretanto tudo contorno e me afundo.


 

Mentiras

Mentira. Detesto anos mentirosos. Amanhã afinal, há mais um dia neste mês.

Sexta-feira, Fevereiro 27, 2004


 

Silêncio

posso triste, que procuras. te trocaste
tavez mais, aquilo
tudo. te perdeste, mostram.
se
que bastante
um,
sabendo dar,
nada menos
dão-te tudo. me absorves no ser
que não querendo,
aquele, encontras feliz e aceitas.
sabendo
podes demasiado. porque
por queres estou eu
outro, todo. que menos sabendo.
um dia.


 

Escrever na Cozinha

Dou por mim a fazê-lo amiúde, normalmente à hora de almoço. Acontece porque enquanto espero que a comida seja cozinhada, há sempre alguns instantes em que consigo escrever. Para isso tenho sempre um poemário na cozinha, assim como uma caneta de tinta permanente. Desta forma, encosto-me a um balcão e vou rabiscando os traços que formam as palavras. E posso sempre evitar que a minha gata ataque a comida.


 

Xadrez

Sou um péssimo jogador de xadrez. Ainda esta semana o demonstrei perante o meu irmão, que facilmente me venceu. Contudo, gosto imenso do jogo, da capacidade de ver e preparar armadilhas ao adversário, segundo aquele conjunto de regras de movimentação das peças. O rei obeso, preso nos movimentos, os bispos dúbios sempre a andar de lado sem nunca se tocarem, que isto de misturar confissões é perigoso. Os cavalos saltitantes, a rainha elegante e poderosa, que tudo domina e claro, o povo, que vai sempre à frente. O Peão que mais não é do que um joguete nas mãos das outras peças, vai dando passinhos curtos, apalpando terreno. Que não percebe os artifícios da corte e é muitas vezes o primeiro sacrificado. Assim é o Xadrez. Um jogo que vem da Índia e que delicia jogar (e no meu caso perder).

Quinta-feira, Fevereiro 26, 2004


 

Experiência #1

procuro.
ando à deriva
vejo-te mas
vou. nada é
uma o
mais. nome meu caminho
perceber
para não ser
de sabê-lo
tão porque eu. perto,
que qual longe
tão distante. primeira
da constante
consigo


 

100 pesquisas

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números hugo
receita poesia
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josé literatura tricot spike ovelha típicos
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brazileira rodrigues baú aqui rissóis
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zoológico campo lee anais laplace
para das rissóis
letras de
david
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Quarta-feira, Fevereiro 25, 2004


 
     


 

Os Raios e Coriscos

Que te incomodam. Que te fazem gritar porque os ouves ao longe. Os fantasmas e os monstros que sussurram e arrastam correntes e te sopram na face odores pestilentos. Gritas. Foges deles, refugias-te na fuligem da tua sombra e aguardas em silêncios dolorosos.

Segunda-feira, Fevereiro 23, 2004


 

Revendo amigos

Ele esteve cá há já tanto tempo que alguns de nós não se lembram mais do cabelo dele. Mas a verdade é que o Azoia decidiu presentear-nos com uma visita à capital.
Deixa-me ver, restaurante, cerveja, conversa, animação... e aquela gargalhada inconfundível... Esta noite promete ser bastante divertida.
Tenho pena de Braga por estes dias...


 

Zero 7 – When it Falls

When it Falls - Zero 7

Esta noite ouvi pela primeira vez (ouvi 6x) o novo, ainda por lançar, álbum dos Zero 7, que me chegou às mãos após muitas chantagens e favores a dever. Sim, ROAM-SE aqueles que esperam por dia 1 de MARÇO para poder comprar o novo álbum. When it Falls é um álbum natural no seguimento da estreia com Simple Things, e é mesmo BOM. O Single de estreia, Home, mostra também uma nova voz, Tina Dico, que encanta e está mais que à altura do desafio. Para além disso, o álbum está recheado de boas músicas, gostando eu particularmente da In Time, que fecha o mesmo é a penúltima canção (Sorry). Todas elas poderão ser ouvidas e degustadas nos próximos dias 4 (coliseu de Lisboa) e 5 (coliseu do Porto) de Abril.

Sábado, Fevereiro 21, 2004


 

Lost in Translation

Fui ver hoje o Lost in Translation e ... desilusão completa. Um filme feminino para gajo ver. Aquilo que pensei vir a ser uma bela surpresa, afinal não foi mais que um flop. A realizadora fez de uma história banal, um filme completamente previsível, sem conseguir desenhar personagens que fugissem do cliché.

A personagem feminina por exemplo, é definida em três alturas do filme. Numa é de Yale, quando o marido não gosta do comentário dela quando lhe apresenta a amiga, de seguida estudou Filosofia, quando fala com o Bill Murray no bar, e por fim ela própria diz ao Bill Murray que os amigos a acham bastante snob, quando está com o Bill Murray na cama, prestes a adormecer, numa posição quase fetal, a fazer lembrar uma criança a necessitar de protecção. Ora eu pergunto: Poderia ser uma mulher com ensino básico, doméstica, e franca? Não acontece a estas mulheres também terem dúvidas? Questionarem a vida? Pelo filme não parece. Outra coisa: Se retirarmos estes 3 momentos ao filme, o que sabemos mesmo da personagem de Scarlett Johansson, Charlotte? Nada. Nada mais a constrói.

Não se entende também a viagem dela a Quioto. Aliás, percebe-se no sentido de uma busca interior que ela faz a si mesma. As metáforas da travessia (quando saltita sobre os troncos) e do casamento (com todas as suas regras e formalidades) que afinal a levam de novo ao ponto de partida. A pessoa antes, perdida, é a mesma pessoa depois. Apenas mais resignada.

A personagem do Bill Murray é sem dúvida mais preenchida. Actor com pouca saída. Álcool. Casamento frustrado. Filhos. Pai ausente. Contudo é uma personagem que mesmo assim, por vezes faz lembrar o Bill Murray real e outras o Jack Nicholson, não sendo nem uma nem outra. Tirando essa remição final em que o Bill Murray afaga a o cabelo da Scarlett Johansson, como quem afaga a nuca de um gato, e a beija, quase nunca mostra grandes emoções. Apenas sono, ou ausência dele. Muito, sempre. A personagem chega e parte como se nada lhe tivesse acontecido. Como se a sucessão de acontecimentos fosse acidental. A narrativa a dada altura deixa de avançar por ordem natural, para ser provocada. O alarme do hotel é um exemplo do que quero dizer.

A personagem do Bill Murray. Pensem comigo. Se fossem realizadores do filme, por acaso era preciso meter o Bill Murray na cama com a cantora? Mostrar aquela imagem de que os homens são todos iguais, blá blá blá.. Era preciso? Imaginem que não tinha havido aquela cena. O jantar de fim não poderia ter sido igual? Só o facto de o Bill Murray ter que partir no dia seguinte, era suficiente para o jantar azedar. Não era preciso metê-lo na cama com a cantora. Pior, não era preciso fazê-lo esquecer-se do que se passara. Mas não. Foi assim que a Sofia Coppola o escreveu. Aliás o filme assim podia passar-se em qualquer outro sitio. Las Vegas, parece-me apropriado. A família Coppola até é conhecedora de causa...

Outra nota, quase final, que nem o matrix II (A e B) levou tantas linhas: O Japão é retratado por uma objectiva muito cruel. Como se a culpa dos males internos fosse também fruto do meio. Fruto da incompreensão. Não gostei dessa forma obsessiva de retratar o Japão.

Em conclusão. Ouvi duas expressões muito curiosas a passada semana: Uma em relação ao filme, de uma amiga brasileira que disse: "Como queria que o marido não lhe ligasse nenhuma? Já viu aquele cuecão? Fio dental, minha filha, fio dental". Nem vou comentar este. O outro foi a propósito do livro do Fernando Alvim, "Quando não sei o quê, qualquer coisa que não estavas lá", e a expressão foi "Livro de um gajo a partir corno". A expressão foi da minha irmã. Quanto a esta última posso dizer que li o livro e não posso concordar mais, maninha. E acrescento que este filme parece a mesma coisa.


 

Na Rua da Bandeira

Vi-te de passagem. Ias protegida pêlos óculos escuros. Eu não. Pensei «vou desviar o olhar», mas não o fiz. Percebi que me reconheceste. A dado instante deves ter pensado como eu pensei. «Fomos colegas. Gostava de ti no liceu». Ias como sempre, de braços cruzados, abraçando-te de uma forma muito tua. Como se te protegesses do que se passava no resto do mundo. Balançando lentamente. Vi-te esboçar um sorriso. Talvez pensasses «como se chama? será que vai falar?». Por um instante senti-me tentado. Depois achei que seria apenas a forma de estragar aquele momento.

Sexta-feira, Fevereiro 20, 2004


 

Ei-la

Orquidea


 

Pixies de volta

Os rumores confirmam-se: os Pixies estão de volta. E o regresso da mítica banda norte-americana faz história também em Portugal, com um concerto marcado para dia 11 de Junho. A data está incluída na décima edição do festival Super Bock Super Rock, que tem lugar no Parque Tejo do Parque das Nações, em Lisboa, nos dias 9, 10 e 11 de Junho.

Não sei o que tenho agendado para esta data, mas sei que estarei aqui.


 

Fotolog

Abri um FotoLog. Ainda estou às voltas com isto a ver como funciona. Mas Adiante. Referi aqui, apenas porque afinal isto é um blog e serve para estas coisas também.

Quinta-feira, Fevereiro 19, 2004


 

Os Sons que me Invadem

John Zorn - Naked City


 

É menina

Bem, não é menina, mas já saiu e fez de mim um tipo muito feliz. Obrigado Sandra. Sem ti não tinha conseguido.

Update às 3:33 do dia 20, ou seja amanhã, mas cheguei dos copos, onde diga-se vi um concerto de musica flamenca muito agradável, na barraca: Para além da felicidade de acima, verifico que a Clarah também voltou em força enquanto estive de férias. Não será coisa de muito tempo eu sei. Mas há esperança. E a minha gata saiu da caixa e já se enfiou debaixo da minha cama.

Segunda-feira, Fevereiro 16, 2004


 

Presente

O Presente é não mais que deixamos para trás - Praia do Cabedelo 2004

Domingo, Fevereiro 15, 2004


 

A minha gata

A minha gata está no veterinário para 3 meses numa tentativa de a habituar a viver dentro de casa. Fui vê-la uma destas noites. Apenas de fugida, que se recusou a estar na mesma sala que eu. Ainda não está pronta. Tem medo. Esgueira-se rapidamente e não deixa mãos alheias sem as garras bem cravadas. E vê-la torna-se um exercício de paciência e persistência. Ainda não sei se conseguirei levá-la para Lisboa.

Sábado, Fevereiro 14, 2004


 

Dispersão

Por causa de um poema da D. lembrei-me deste outro, do Mário de Sá-Carneiro. Fui procurá-lo e aqui fica:

PERDI-ME dentro de mim
Porque eu era labirinto,
E hoje, quando me sinto,
É com saudades de mim.

Passei pela minha vida
Um astro doido a sonhar.
Na ânsia de ultrapassar,
Nem dei pela minha vida...

Para mim é sempre ontem,
Não tenho amanhã nem hoje:
O tempo que aos outros foge
Cai sobre mim feito ontem.

(O Domingo de Paris
Lembra-me o desaparecido
Que sentia comovido
Os Domingos de Paris:

Porque um domingo é família,
É bem-estar, é singeleza,
E os que olham a beleza
Não têm bem-estar nem família).

O pobre moço das ânsias...
Tu, sim, tu eras alguém!
E foi por isso também
Que te abismaste nas ânsias.

A grande ave doirada
Bateu asas para os céus,
Mas fechou-as saciada
Ao ver que ganhava os céus.

Como se chora um amante,
Assim me choro a mim mesmo:
Eu fui amante inconstante
Que se traiu a si mesmo.

Não sinto o espaço que encerro
Nem as linhas que projecto:
Se me olho a um espelho, erro -
Não me acho no que projecto.

Regresso dentro de mim
Mas nada me fala, nada!
Tenho a alma amortalhada,
Sequinha, dentro de mim.

Não perdi a minha alma,
Fiquei com ela, perdida.
Assim eu choro, da vida,
A morte da minha alma.

Saudosamente recordo
Uma gentil companheira
Que na minha vida inteira
Eu nunca vi... mas recordo

A sua boca doirada
E o seu corpo esmaecido,
Em um hálito perdido
Que vem na tarde doirada.

(As minhas grandes saudades
São do que nunca enlacei.
Ai, como eu tenho saudades
Dos sonhos que não sonhei!...)

E sinto que a minha morte -
Minha dispersão total -
Existe lá longe, ao norte,
Numa grande capital.

Vejo o meu último dia
Pintado em rolos de fumo,
E todo azul-de-agonia
Em sombra e além me sumo.

Ternura feita saudade,
Eu beijo as minhas mãos brancas...
Sou amor e piedade
Em face dessas mãos brancas...

Tristes mãos longas e lindas
Que eram feitas p'ra se dar...
Ninguém mas quis apertar...
Tristes mãos longas e lindas...

Eu tenho pena de mim,
Pobre menino ideal...
Que me faltou afinal?
Um elo? Um rastro?... Ai de mim!...

Desceu-me n'alma o crepúsculo;
Eu fui alguém que passou.
Serei, mas já não me sou;
Não vivo, durmo o crepúsculo.

Álcool dum sono outonal
Me penetrou vagamente
A difundir-me dormente
Em uma bruma outonal.

Perdi a morte e a vida,
E, louco, não enlouqueço...
A hora foge vivida
Eu sigo-a, mas permaneço...

.......................................
Castelos desmantelados,
Leões alados sem juba...
.......................................

Mário de Sá-Carneiro
Paris, Maio de 1913


 

Anaïs Nin #3

"Era noite e fiz um movimento descuidado dentro do sonho. Virei bruscamente demais a esquina e choquei contra a minha loucura."

Ela dança. Veste de negro sobre um fundo negro com negros olhos, que incendeiam a cada passo. Percorre o palco, mostrando-se claramente. Quer mostrar-se. O meu desinteresse pela dança sempre foi uma força para si mesma. Uma luta para me mostrar na plateia vazia o que nunca vi. Que era através dela que lutava. A sua vida. Sempre lutou assim, com metáforas que nunca quis entender. Que sempre ocultei de mim mesmo e vi entre paredes escuras e salas vazias. Ela faz uma pirueta, cai morta. Eu dormia e acordei com a entrada dos paramédicos para morrer.

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Quinta-feira, Fevereiro 12, 2004


 

Anaïs Nin #2

"Nunca se viram estrelas empalidecer ou cair. Nunca adormecem."

Ele pinta o cabelo. É sabido. Ela também. Chega cheia de jovialidade. Gira, maquilhada. Como sempre. Ele é já um pouco calvo. A idade mostra uma testa maior que o normal. Ele bebe uma água sem gás. Ela corajosa no momento, pede um licor de whisky. Meio. Com uma pedra de gelo. Brinda ao ciúme e brilha. Faz-se tarde. Provoca. A barba aqui, o sorriso ali. Ele interrompe a conversa sentindo-se ameaçado. Desconversa. Ele é instante. Ele passado. Por fim, quando parte ela segura-o. Ele vacila. Caminha seguindo-a sem olhar para trás. Ela lança um último olhar. Sente-o na nuca. Ela abraça o luar. Hora de chegar a casa. Hora de tirar a maquilhagem.

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Quarta-feira, Fevereiro 11, 2004


 

Anaïs Nin #1

"O amor de um pelo o outro é como uma extensa sombra que se beija, sem qualquer esperança de realidade"

Olho para uma foto antiga. Estou de fato. Vou de mão dada com P. Ela, atenta ao caminho. Eu, distraído com a fotógrafa que nos observa pela objectiva. Larguei a mão de P. e sorri. A fotógrafa baixou a protecção e mostrou-me o olhar. Sorriu também, corando um pouco.

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Terça-feira, Fevereiro 10, 2004


 

Fantasmas

Sabem aqueles que nunca nos largam? Mesmo que os sacudamos do capote com todas as nossas forças? Encontram sempre formas de voltar para nos atazanar. Vou beber um copo a SANTOS.

Outros tempos: estou com saudades da Clarah.

UPDATE: Regresso a casa mais sóbrio que bebido. Apaguei metade deste post, pelo que não vão saber o que aqui esteve entre o tempo em que saí e o que cheguei.

"Anda!"
"Espera, onde está o meu Whisky?"

Até amanhã.


 

Estranha sensação

Disseram-me hoje que talvez venha a dar aulas a polícias da PSP. Estranho, eu dar aulas a polícias. Não consigo imaginar a figura da autoridade a receber instruções.


 

Férias

Faltam apenas alguns instantes para partir de férias. Amanhã estou de partida para longe. Para descansar, para ver de novo a minha praia. Para me encontrar e não me perder. Para te encontrar.


 

Teolinda Gersão

O Leonel Vicente fez referência ao ataque e ao desmentido que por aqui passou. Agradeço-lhe desde já a atenção, para memória futura desse acontecimento, mas queria registar o porquê de tal vendaval. O exercício da escrita bloguisíca, seja lá o que for começou antes mesmo da implementação blogueira em Portugal. Ou mesmo noutros lados, muito embora eu desconfie que não sou tão velho assim. E naturalmente o aviso que a mensagem de fim encerra é a da dispersão que o exagero de toques pode provocar na pessoa blogueira.

A razão última para o desmentido passa por um livro de uma senhora que gosto bastante. Um livro que comprei no Domingo no King, por apenas 2 € (adoro estes pechisbeques), e que invariavelmente devorei. Sempre foi assim com a Teolinda Gersão, desde o "Silêncio" ao "Paisagem com Mulher e Mar ao Fundo" até ao mais recente "Os Teclados". E curiosamente foi este último que me fez lutar contra os meliantes. Porque Júlia, a personagem, no seu silêncio resignado, tinha o poder de uma imaginação brilhante. Foi por causa de Júlia e do seu piano de papel vegetal, que a dada altura se instalou na minha mente que da mesma forma que Júlia não conseguiria deixar de tocar piano, porque ouvia a música mesmo quando passeava, também eu não conseguiria ser apenas leitor de um passado se as palavras continuavam a martelar-me o cérebro. Não tendo um estatuto de resignado a personagem de livro, limpei o pó, limei arestas e voltei a colocar os pontos nos iis. No secreto móbil, modifiquei a linha editorial e ataquei a minha smith-corona.


 

Hack Atack

Queria agradecer ao meu psicanalista por me ter feito ver a luz, e à minha ex mulher por ter casado novamente, fazendo com que não lhe tenha que pagar mais um tostão de pensão de alimentos. Queria também dizer a todos que ontem, dia 9 de Fevereiro, este blog foi atacado barbaramente por meliantes que anunciaram o seu fim fazendo-se passar pela minha pessoa.
Reposta a normalidade, mudada a password do blog e o canhão da fechadura da casa de praia, decidi também oferecer de volta o sistema de comentários. Mas aviso desde já que:

I'm BACK, not sain, But Back

Segunda-feira, Fevereiro 09, 2004


 

O Fim

(4-10-2002 a 9-02-2004)
Já várias vezes o tinha pensado, várias vezes o tinha dito para com os meus botões. Agora chegou finalmente a vez de encerrar esta casa. Vou fechar a porta do sixhat agridoce e vou dedicar-me a outros projectos, outras ideias. Durante inúmeros meses todo tempo que passava era o de tentar perceber qual o próximo post que colocaria aqui. Tentar escrever algo que pudesse dizer alguma coisa a quem o lia. Afinal sempre é esse o interesse do escritor: Contar uma história que interesse a alguém. Foi um prazer receber de alguns os comentários mais adoráveis que alguma vez recebi sobre um texto, um fragmento de ilusão, uma linha de prazer que provoquei. Era um prazer escrever em função do sixhat agridoce. Do que queria ele dizer, transmitir aos que se avizinham. No entanto tudo o que é bom tem que ter um fim, e nos últimos tempos já não era possível extrair do agridoce o sumo de prazer que me movia. Outros textos foram surgindo, ideias foram-se desnovelando. Amores novos substituiriam outros mais antigos. O sixhat agridoce evoluiu ao longo do tempo e ao longo do tempo soube-me sempre dar prazer. Agora é tempo de parar. De colocar o produto num frasco de formol, abrir a vitrina e deixá-lo ficar para sempre em exposição.
Noutros lados continuarei a escrever, a dizer coisas, a mexer alguns cordelinhos. Mas não aqui. Continuarei a responder aos emails que me forem enviados, talvez não com a celeridade do costume. Espero que lendo aquilo que aqui é agora passado, possam em alguns instantes retirar tanto prazer como o que eu retirei quando os escrevi. A vocês os dois, meus fieis leitores, o muito obrigado.

David Rodrigues
Um Pirata Meliante

Sábado, Fevereiro 07, 2004


 

O papa-açorda

Havia um papa-açorda que queria saber como sabiam as outras comidas do mundo. Então partiu em viagem para descobrir essas iguarias de que ouvira falar. Viajou durante muitos anos e um dia voltou. Os amigos ofereceram um jantar em sua honra, por ser o mais viajado e ter com certeza muitas histórias para contar. O repasto soube-lhe como nada alguma vez lhe soubera. "O que é?" perguntou deliciado.

- É uma açorda.


 

Há Vales

Há vales por onde os caminhos percorridos são não mais que esquecimentos arrependidos.

Deixo uma janela entreaberta na minha casa ao fundo da aldeia e nessa janela uma vela, para que o teu espírito se guie na minha ausência. Para que saibas que estou perto e me vejas mesmo quando olhas de longe.

Todas as manhãs a vela está apagada. Na claridade não precisas de guia. Sabes o teu caminho.

Todas as tardes, depois de almoço, calcorreio os caminhos da aldeia até ao riacho. Lá deito-me numa pedra larga a contemplar as nuvens e assim fico até anoitecer.

Todas as manhãs pinto um novo quadro para o qual procuro a perfeição da pincelada, da cor, da estrutura, da mensagem.

Todas as noites tiro uma vela nova de um baú que está junto da masseira e acendo-a junto da janela entreaberta.

Todas as manhãs saio da cama e entro no quarto onde deixei a vela. Todas as manhãs ela está apagada. Na claridade não precisas de guia. Sabes o teu caminho.

Há um vale por onde caminharemos e então não esqueceremos.


 

Novedad

Que caiam anhos dos céus e partam os presépios que são nossos sonhos e vossos contentamentos. Somos miúdos que querem mais que um dia, um sonho, um desejo simplificado pela cultura tradicional. Por nós. A nós a louca. A mouca. Aquela que faz e desfaz o término do pensamento. Onde nos ausentamos e desfazemos o que não queremos. Onde navegamos perdidos e descobrimos os azuis, os verdes e os amarelos que fundamentam os nossos movimentos. Que caiam anhos que jantar não há. Que os nossos contentamentos sejam hereges e os anhos assados para os nossos satisfazer, antes aqui que além.

Sexta-feira, Fevereiro 06, 2004


 

Henry Chinaski

Levantei-me e subi lentamente a coxia. Ergui o braço e toquei ao de leve no flanco de Hemingway.
- Sr. Hemingway...?
- Sou; o que é?
- Gostava de trocar uns socos consigo.

Quinta-feira, Fevereiro 05, 2004


 

Há céus de fogo e cetim

Não há fragmento de mim que não deseje voltar a mim. Não há condição de vagabundo que não tente a serenidade. Não sou mais que o fundo, a escuridão onde me oculto. As sombras da rua onde caminho são companheiras eternas.

O piano toca no salão. Como se tudo não passasse de uma ilusão. Vejo-te dançar, inebriada, por todos os que te observam. É um silêncio. É aquele olhar ténue e enigmático que cruzamos.

O escritor maldito, o autor proscrito. O músico. Ficou a saudade na audição. Ficou o lugar longe de te ver. Haver. Ou a ver. Te. Maldição de mim. O fundo negro emerge e tenta mostrar o equivoco. A serenidade é o charco de mim onde o frenesim é ocre.

As palavras ressoam na minha cabeça como se se tratassem de um bombo de zé-pereiras. Ou de cem bombos. Marcação sincopada pela ausência. Pelo descuido de uma página em branco. O voltar aos livros. O fugir-me. O amaldiçoar os tempos e os ventos que me sopram na cara, nesta falésia. Naquele mar que não sei estar lá, onde a névoa apenas deixa ver o murmurar do vai vem constante. Onde me perdi em enleios e mistérios tamanhos.


 

Ficou o mundo muito mais vazio

Para poder morrer
Guardo insultos e agulhas
Entre as sedas do luto.
Para poder morrer
Desarmo as armadilhas
Me estendo entre as paredes
Derruídas
Para poder morrer
Visto as cambraias
E apascento os olhos
Para novas vidas
Para poder morrer apetecida
Me cubro de promessas
Da memória.
Porque assim é preciso
Para que tu vivas.

Hilda Hilst
(1930-2004)

update: algo mais sobre


 

Porque o meu dia começa agora

Cheguei a casa e tentei a difícil tarefa de estacionar. 40 minutos às voltas e voltas e voltas e não consegui encontrar um único lugar na Paiva Couceiro e arredores. Voltas e voltas e voltas. Por fim já bem longe de casa um lugar, irritantemente um lugar ilegal. Amanhã vou ter que me levantar de madrugada, para tirar o carro do sitio onde está, senão a polícia começa a multar (já não era a primeira). Mas o que mais chateia é que agora apareceram os bloqueadores e as fitas amarelas a identificar o prevaricador. Mostrando a todos que cometemos uma ilegalidade. E pagamos logo 6 continhos para nos desbloquearem o carro, que da multa não nos safamos. Ora eu pergunto se a os 6 contos são para desbloquear e se a tarefa não demora mais de 10 minutos e considerando que foram precisos outros 10 para bloquear... 6 contos por 20 minutos de trabalho (lembro que estes 6 contos não são nenhuma multa, nem coima, nem nada, apenas se paga para desbloquear o carro, a multa vem depois) dá qualquer coisa como 18 contos por hora de trabalho. Amanhã vou apresentar-me na EMEL para me darem um daqueles imobilizadores e autorização para imobilizar os meus vizinhos todos. Fico rico num instante.

Quarta-feira, Fevereiro 04, 2004


 

Sonhos

Um homem encosta-se
no instante em que
passa a vida

Desce até ao balcão
onde o absinto
isola a carne e despe
a mente não é
um instante.

O medo invade-me.
Agarrou a janela do meu ser.
Olhava distraído para a rua quando fui acossado.
Fui perdido. Achado
em terebintina diluído

Bate as asas andorinha
Bate as asas andorinha


 

A minha montanha

Sangue é o que não me corre nas veias quando olho para ela. É fogo. É tudo o que dói e mata e desfaz. São vísceras aquelas que a subida cospe a quem a percorre. Não dói. É uma infecção que alastra lentamente e mina a mente. Perturba. Desampara e desequilibra os ritmos. Equilíbrio. Somos frutos proibidos e somos passado. Ontem dormi contigo, no sopé, para tentar que me permitisses a subida mais gloriosa. Hoje apanhei o caminho predefinido no tempo, nos glaciares e nas falésias que te atravessam. Subo lentamente. Ouço o silêncio absoluto a inundar-me os ouvidos. Somos apenas nós dois agora.


 

Matando maridos e nem só

Os gatos são nossos amigos, são-no é verdade. Não sei porque teria um gato se não fosse meu amigo. (Eis a verdade das relações modernas, os gatos. Confidentes e secretos). Mas andando um pouco para a frente podemos pensar naquilo que não temos e lhes proporcionamos babados. Daí que por vezes eu tenha uma tremenda inveja deles. Agora com um certo gosto pela morte. É aqui que entra o título.


 

Tic Tac Tic Tac

Tic Tac Tic Tac Tic Tac Tic Tac Tic Tac Tic Tac Tic Tac Tic Tac Tic Tac Tic Tac Tic Tac Tic Tac Tic Tac Tic Tac Tic Tac Tic Tac Tic Tac Tic Tac Tic Tac Tic Tac Tic Tac Tic Tac Tic Tac Tic Tac Tic Tac Tic Tac Tic Tac Tic Tac Tic Tac Tic Tac Tic Tac Tic Tac Tic Tac Tic Tac Tic Tac Tic Tac Tic Tac Tic Tac Tic Tac Tic Tac Tic Tac Tic Tac Tic Tac Tic Tac Tic Tac Tic Tac Tic Tac Tic Tac Tic Tac Tic Tac Tic Tac Tic Tac Tic Tac Tic Tac

O tempo passa e eu fico nervoso. Porque será?


 

Ou quando o meu sonho era não estar acordado

Eu , sou , assim , não me vou rir. O Central Park já não é o meu presente. Não. Sou ausente. Aqui.


 

Não vale a pena discutir

Já tudo foi opinado. Porque motivo então discutir? Principalmente sobre temas que se sabe irem cair no goto daqueles que dizem que já disseram? Parece ser mal geral comentar as comentarices. A falta de originais é tremenda. Não há nada de novo aqui. Nem neste post.

Uma nota: Tenho apreciado alguma da discussão de alguns bloggers de arquitectura. Não é a minha área, não me pretendo meter sequer ao barulho nem muito menos criar farpas, mas em alguns, a discussão passa mesmo por aquilo que disse no parágrafo anterior.


 

As desculpas.

Amiga, desculpa ainda não te ter devolvido o livro, mas esqueci-me dele na mesinha ad eterno... e honestamente não sabia se era teu (desconfiava), mas a minha cabeça não é já o que era. Quando formos almoçar devolvo-to.

Terça-feira, Fevereiro 03, 2004


 

Crónicas de um bar americano.

Sai da prisão depois de 5 anos. Para evitar a frustração de outras andanças, fui servir uma mesa vazia. Queria encontrar-me e esquivei-me. Não consegui. Não sei chorar pelo que perdi. Sustive a minha respiração mais uma vez e calei-me. O passado prometia muito. Mas construi o meu presente de erros e equívocos. Agora como será? Calarei? Destruirei o passado ou não serei um caminho.

Thelonious Monk a tocar Introspection. Depois Chet Baker. A esta hora da tarde nunca temos muitos clientes no bar e o patrão deixa-me pôr a musica que gosto. Estou a varrer o chão junto do balcão. Um miúdo pediu uma fatia de tarte e deixou-a cair. Lá fora passam carros. Aproxima-se a hora de ponta. Daqui a pouco teremos o bar cheio de yuppies a querer esquecer-se da solidão das suas vidas. Continuo o meu bailado.

«Dá-me aí uma cerveja»

Talvez estejam uns 30ºC. A ventoinha não para desde manhã.

O Joe é um habitual. Já é velhote, reformado. Passa as tardes aqui no bar.
Levo-lhe a cerveja e pergunto pelo Sam, o namorado.

«O Sam abandonou-me. Atracou-se a um tipo mais novo lá do trabalho.»

Voltei para trás do balcão. Não pude deixar de ter pena do Joe. Estava ali com ar de quem não vê. Olha, mas não vê. Parou no tempo. Não mostra dor, não mostra angustia. Sei que se deve sentir triste. Todos os dias vem aqui, tenta engatar um miúdo para passar a noite. Ele ama o Sam. Aqui vem os trapos. Jogados para um canto. Noutro dia vi-o sair com um tipo novo. Mas não durou mais que aquela noite. Os olhos dele continuam fixos na ausência. Perdidos em caminhos extintos.

Eram sete da tarde e eu ia sair. Acabara o meu turno. Tinha um encontro com Julie, uma vizinha, e atirei o avental para o dispensário com uma velocidade tal que o Joe perguntou:

«Estás cheio de pressa, meu rapaz. Tens alguma fisgada?»

«Sim Joe, tenho uma saída hoje, vou jantar com a Julie. Sabes?»

«Ah, sim conheço. Boa sorte meu rapaz. Olha, podes-me deixar em casa no caminho?»

Dei boleia ao Joe. Também ele devia ter alguma. Não costumava sair tão cedo do bar. No carro perguntei-lhe pela vida. Disse-me que ia ter com o Sam e mostrou-me um embrulho de papel cartonado:

«É um presente, vamos comemorar.»

«Vão comemorar?»

«Sim, é o nosso aniversário. Fazemos 3 anos de namoro.»

«Então estão de parabéns!» - O Sam continuava com o tipo novo do trabalho, mas esta conversa vinda do Joe era já habitual. Já não distinguia a realidade da imaginação.

Soube mais tarde que o Sam aparecera morto a tiro e que o Joe fora preso. Em casa dele encontraram um pistola embrulhada num papel cartonado. Quando o vi no tribunal, no dia da condenação, o Joe olhou-me e reparei que já não tinha aquele olhar distante, vazio. Parecia sorrir. Foi executado 3 meses depois.


 

Recuperando Junho'03

Lendo algumas coisas antigas... (8 meses é antigo?)

...and where does the newborn go from here? The net is vast and infinite.
in Ghost in the Shell.

«Quando escrevo no meu diário, ou mesmo sem ser no meu diário (Será que falo do Blog?), muitas vezes faço-o a lápis (pronto, não estou a falar do blog). Isto porque pode um dia alguém querer apagar as minhas palavras da existência e assim terá o processo facilitado. Bastar-lhe-á utilizar a safa (borracha para o sul) para me lançar no esquecimento. Assim não precisará de incorrer em jogos de poder e de política barata. Não precisará denegrir o meu nome na praça pública ou recorrer às injurias pessoais, como as que eu produzo amiúde no meu diário.
Chegou a este ponto da leitura? (pausa de 30 segundos para admiração e para aguçar (afiar, novamente para o sul) o lápis). Admirado por eu não ser perfeitinho e recorrer a processos tão vis, como a injuria e a calunia? Pois é, o meu diário tem que suportar tanta coisa. Mas agora com certeza quer saber se o seu nome é um dos contemplados com as más educações do meu diário. É! É e é e é e é! Se não for numa página será noutra, ou então será certamente depois de me processar. Fico à espera da notificação do tribunal. Mas por aqui já percebeu porque escrevo a lápis.

Ainda há quem me leve a sério? Ah... Azar... Pensam que eu sou ele! Ah.. Azar... Eu sou eu... tenho vida própria.. vontade própria e não permito que um corpo me capture. Sou etéreo, não permaneço. Podia escrever um poema sobre mim, mas aí não estaria a dizer nada a alguns. Estaria apenas a mostrar um poema incompreensível à maioria. Eu sou aqui... O problema é pensarem que eu sou eu. Eu ele ou ela ou it! Ou então nós todos! Quem somos? Somos tu? Não. Certamente não seremos tu? Toma cuidado, um dia serei tu! E deixarás de estar aqui e perceberás a loucura. Mas para onde me leva este caminho?»


 

A TZU-CHI: Entre as «Flores»

A luz no lago, de súbito, esconde-se atrás do muro,
Invadem o quarto os cheiros misturados de flores.
Na borda do biombo, o pó que a borboleta espalhou,
Na janela lacada, a mancha amarela da abelha.
Deixa esses papeis oficiais para os escriturários,
Há um criado para cada funcionário público honesto.
Vamos de cavalgada ouvir os poemas um do outro.
Que há de tão urgente nesses assuntos em que perdes o coração?

Li Shang-Yin (Sec. IX)


 

Os livros que falam comigo

Normalmente diz-se que quando temos uma dúvida, devemos abrir um livro aleatoriamente e devemos ler sem preocupações. E que o texto lido nos dirá a resposta certa para a nossa pergunta.

Estou neste momento a fazer uma pergunta.

É complicado com vocês a olhar.

Mais um pouco.

Já está. Vou ler. O livro que escolhi para o efeito, embora alguns digam que deve ser a bíblia, é o Caderno Vermelho do Paul Auster (que honestamente não sei como veio parar à minha mesinha de cabeceira). Leio-o em voz alta para vocês ouvirem:

L. e eu casámos em 1974. O nosso filho nasceu em 1977, mas no ano seguinte o casamento tinha terminado.

Fiz um silêncio longo. Não sei se fiquei contente ou nem por isso.

Segunda-feira, Fevereiro 02, 2004


 

Radio Silence

Vou estar longe daqui durante alguns dias.

Mentira, não vou.


 

A cabeça de burro

Um dia estava o busto em cima de uma escrivaninha. Era onde tu trabalhavas. Era onde desesperava eu não saber o que fazias. Foi uma água que me matou, naquele engasgar de uma nota envenenada.

Caminhei pelo álea. Pela álea sorri. Ao fundo ficava uma farmácia e entrei. Pedi ao mágico do almofariz que me curasse as dores. Ouvi cavalos percorrerem a trote lento a calçada defronte. Olhei pelos quadrados sujos da porta de entrada. Um cavalo empinara e atirara o cavaleiro ao chão. Soltei uma gargalhada, o que provocou um olhar de reprovação do dono da farmácia. Amassava uma mezinha qualquer e não achava muita piada ao meu divertimento macabro.
Maria descia do monte. Trazia nas mãos um braçado de giestas que depositou em cima de uma dorna, junto da entrada. Depois contornou o edifício e parou para beber água, que bombeou no sarilho do furo artificial. Acompanhei-a com o olhar, tanto quanto a vidraça me deixou. O farmacêutico entretido com o pilão, resmungava uma ladainha qualquer sobre os cavaleiros que passaram. Observei que Maria estava ruborizada e que matava a sede com grande satisfação. Acabando de beber, ficou a olhar para mim. Assustei-me pensando ter sido apanhado e imediatamente curvei o olhar em deferência. Enganei-me. Maria ajeitou uma madeixa de cabelo que estava solta. A escuridão da farmácia permitia-lhe ver-se no vidro como se de um espelho se tratasse. Não tinha sido descoberto, mas senti vergonha por estar a olhar. Tentei distrair-me olhando um pouco para as vitrinas repletas de frasquinhos. Estrategicamente fui olhando apenas para as que em determinado ângulo reflectiam a figura de Maria. Enganando a minha consciência continuei a observá-la enquanto se refrescava. Achei-a formosa, bela e apaixonante. Estive para pedir a sua mão logo ali ao farmacêutico.

- Aqui está. São 2 reis.


Voltei algum tempo depois em silêncio, sem anunciar a minha chegada. O veneno não fez efeito. Vagueei na outra margem do rio do esquecimento e lembrei-me daqui. Que o meu lugar é onde estou. Não onde fui. Vou para morrer. Vou e não voltarei. Não me recordarás. Será um fim esquecido. Apenas esquecido. Apenas um fim. Mais nada. Irei sozinho.

Mas levo o meu busto do Sartre.

Domingo, Fevereiro 01, 2004


 

Primavera

Antes de chegar, por vezes é preciso pegar num espanador e tentar dar algum retoque às paredes. Limpezas gerais em curso. Precursor de mudanças futuras...


 

A acompanhar com mais tempo

Este portal está muito bem construído e para além do mais tem as histórias das cobrinhas. Das tiras para a animação em flash.. um delírio


 

Crise Lamentável

Gostava tanto de mexer na vida,
De ser quem sou - mas de poder tocar-lhe...
E não há forma: cada vez perdida
Mais a destreza de saber pegar-lhe.

Viver em casa como toda a gente
Não ter juízo nos meus livros - mas
Chegar ao fim do mês sempre com as
Despesas pagas religiosamente

Não ter receio de seguir pequenas
E convidá-las par me pôr nelas -
À minha Torre ebúrnea abrir janelas,
Numa palavra, e não fazer mais cenas.

Ter força um dia pra quebrar as roscas
Desta engrenagem que empenando vai.
- Não mandar telegramas ao meu Pai,
- Não andar por Paris, como ando, às moscas.

Levantar-me e sair - não precisar
De hora e meia antes de vir prá rua.
- Pôr termo a isto de viver na lua,
- Perder a frousse das correntes de ar.

Não estar sempre a bulir, a quebrar coisas
Por casa dos amigos que frequento -
Não me embrenhar por histórias melindrosas
Que em fantasia apenas argumento

Que tudo em mim é fantasia alada,
Um crime ou bem que nunca se comete:
E sempre o Oiro em chumbo se derrete
Por meu Azar ou minha Zoina suada...

Paris - Janeiro 1916
Mário de Sá-Carneiro

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